Há tempos eu não vivia uma experiência tão, digamos, pessoal. Tão intensa. Tão íntima. Creio que desde GRIS, jogo que também gostei bastante. O fato é que alguns jogos eletrônicos conseguem representar um verdadeiro “soco no estômago”, e assim foi também com Waking (site oficial), desenvolvido por Jason Oda.

Waking

Waking, entretanto, representa uma experiência mais onírica, mais surreal, mais íntima ainda. Trata-se de um daqueles títulos que você joga sentindo que “algo estranho paira no ar”. Que algo diferente está diante de você.

O novo game de Jason Oda é ambientado em meio aos sonhos perturbados de um certo protagonista sem nome. O fato, entretanto, é que tal protagonista, na verdade, é o próprio jogador.

Waking

O jogo chega a perguntar qual é o nosso nome verdadeiro, bem como também detalhes relacionados à nossa estatura (além do sexo). É um fato, também, que o jogo lida com sentimentos, sensações e acontecimentos bastante delicados.

Ele mesmo chega a recomendar que devido à sua narrativa, devido aos tópicos abordados e às experiências que serão apresentadas, talvez não se trate de algo adequado a quem possui histórico de depressão, ansiedade, ou problemas similares.

Waking

Sobre Waking

Uma narrativa baseada no jogador. Waking lida com você. Você é o “objeto”, digamos, alvo, do jogo. No jogo, você tem de realizar determinadas escolhas baseadas em sua própria experiência, em sua própria bagagem de vida.

O título conta com perspectiva em terceira pessoa, e o protagonista sem nome também não possui um rosto: tudo o que visualizamos é um capuz. Vazio. Escuro.

Waking

Waking é uma das grandes provas do quão instigantes podem ser determinados jogos independentes. Do quão magníficos, cativantes, profundos e únicos podem ser determinados títulos, como aqueles publicados por empresas como a própria tinyBuild (publisher do game em questão).

Obs: isto sem falar, obviamente, na Raw Fury, na Devolver Digital, e em diversas outras publishers que geralmente publicam jogos “foras dos padrões” da indústria AAA, felizmente.

Waking. Acordando. Acordado. Será que você pode dizer isto a respeito do personagem principal do jogo, o qual logo de início é apresentado, em uma situação no mínimo desesperadora?

Waking

História / Narrativa

Digamos que temos aqui uma história bastante pesada. Em Waking, o protagonista (porém o jogo faz de tudo para que você se coloque no papel dele) encontra-se em coma. Não é explicado como nem porque.

O jogo, além disso, o tempo todo lembra você de que é bem mais fácil se deixar levar e “caminhar em direção à luz”, tudo isto enquanto puzzles, combates e até mesmo lutas contra alguns chefes acontecem.

Waking

É como se o personagem principal sem nome e sem rosto estivesse sonhando, porém, este tal sonho no qual somos inseridos à força, digamos, pode ter consequências bastante severas, dependendo de nossas escolhas.

Waking

Dependendo de como lidamos com várias e inusitadas situações a nós apresentadas. O jogo, aliás, fala conosco o tempo todo, de forma até mesmo um tanto quanto pessimista, várias e várias vezes.

Nos é dito para abandonarmos tudo e nos deixarmos levar.Para o outro lado. Para a morte. Para o desconhecido, quem sabe. O fato é que Waking pode, mesmo, pelo menos a princípio, soar como um jogo bastante pessimista.

Por outro lado, é um fato que o tal sonho do qual participamos e que representa o jogo em sua magnitude é, também, uma espécie de pesadelo, e uma das provas disso são os “inimigos” que combatemos, incluindo nossos encontros com o tal Death Counselor, ou Conselheiro da Morte. Tal figura é inclusive dotada de chifres, mas estes têm mais a ver com animais do que qualquer outra coisa (esqueça o Diabo cristão aqui, ok?).

Waking

Jogando

Como já dito acima, o jogo fala conosco o tempo todo, em um idioma (pelo menos para mim) desconhecido. Legendas aparecem em tela, entretanto (em inglês), e somos inclusive chamados pelo nosso próprio nome (desde que tenhamos respondido às perguntas iniciais com honestidade).

Teríamos aqui um exemplo de quebra da quarta parede? Muito provavelmente, tão íntima é a experiência, e tão pessoal se torna a relação entre a “voz do game” e você.

Waking

Os ambientes do jogo geralmente são bem escuros, e ao entrarmos em buracos denominados “Axons“, termo que tem também a ver com nossa parte neurológica, somos então transportados a espécies de outras realidades, todas elas uma parte de nós mesmos, digamos. Todas elas partes do sonho/pesadelo no qual estamos imersos.

Waking

Conforme vamos adquirindo experiência em Waking, vamos ganhando poderes e habilidades especiais, todos eles ligados, de certa forma, também à nossa mente, como por exemplo a telecinese.

Com tal poder habilitado, podemos erguer diversos objetos em nossa frente, por exemplo, utilizá-los como escudo e até mesmo lançá-los contra os inimigos diversos.

Waking

O protagonista. Em coma…

O título como um todo é bastante peculiar, e em determinado momento somos questionados a respeito de quais eram os grandes desejos de nossa vida. Podemos optar por diversos itens/desejos, em uma grande “plataforma”.

Waking

Dentre os desejos, temos, por exemplo, beleza, segurança, aventura, liberdade, dever, conhecimento, altruísmo, etc. Tudo isto posteriormente será utilizado como habilidades e memórias, vale ressaltar.

Waking também nos questiona a respeito das maiores dificuldades de nossa vida, e nossas respostas aqui irão também ajudar a moldar nosso personagem. Neurônios podem ser coletados, em diversos locais, e eles meio que funcionam como uma espécie de moeda. Isto para a entrada em algumas passagens especiais, digamos.

Waking

Algumas considerações finais

Esperança e medo também se fazem presentes o tempo todo, na forma de medidores em tela, ligados ao desbloqueio de itens especiais e também à dificuldade que teremos para enfrentar determinados inimigos.

Waking é um jogo extremamente interessante e único. Ele oferece uma atmosfera bastante distinta, além de NPCs muitas vezes assustadores e/ou perturbadores. O game lida com o jogador de uma forma extremamente única, e em determinado momento, vemos em tela até mesmo frases do tipo “na morte você estará livre de sua dor”.

Justamente devido a isto e a todo o exposto acima, não recomendo que você jogue Waking caso possua qualquer tipo de problema relacionado a depressão e transtornos do tipo. Ou até mesmo se você passou por perdas recentes, digamos.

Em caso contrário, recomendo muitíssimo o jogo: ele é verdadeiramente especial. Bastante imersivo e surreal, muitas vezes. Nosso protagonista, em coma e em meio a seus sonhos e pesadelos, muitas vezes passa por maus bocados, e a vida do jogador pode algumas vezes se tornar extremamente complicada.

De qualquer forma, recomendo muitíssimo o jogo. Vale lembrar também que há uma demo disponível no Steam.

Ficha técnica

Título: Waking

Gênero: Aventura, Atmosférico

Desenvolvedora: Jason Oda

Publisher: tinyBuild

Lançado em: 18 de Junho de 2020

Plataformas: PC, Xbox One

Versão analisada: PC

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