Em desenvolvimento há mais de 4 anos pelo estúdio independente Friend & Foe Games e lançado no início de 2019 como um exclusivo do PlayStation 4 (o jogo chegou, finalmente, ao PC, no último dia 22 de Julho), Vane é mais um daqueles espetaculares jogos eletrônicos sem palavras, sem diálogos, sem tutoriais e capazes de provocar imensa imersão.

É uma tarefa que cabe ao jogador, interpretar o que está acontecendo ao seu redor, com base no audiovisual que tem à sua frente. Vane coloca o jogador na pele de um pássaro que pode também se transformar em um ser humano. Em um frágil e irrequieto garoto, tudo através de uma substância dourada que emana de alguns lugares.

Vane

O mundo onde tudo acontece é, em grande parte, desértico, e podemos por ele voar à vontade enquanto na pele do pássaro, resolvendo puzzles simples e adentrando cavernas imensas onde máquinas estranhas encontram-se em funcionamento, máquinas que muitas vezes têm por objetivo manter cativos outros pássaros, iguais àquele controlado pelo jogador.

A narrativa de Vane é bastante sutil, e podemos deduzir muitas coisas ao longo do gameplay, incluindo seu final impactante e inesperado. O mundo do jogo parece ter outrora abrigado algum tipo de civilização, antiquíssima, da qual agora tudo o que resta são ruínas e poeira.

É um mundo marcado por uma solidão extrema, solidão esta também expressa pelo barulho suave do vento enquanto voamos. Solidão esta representada pelas figuras encapuzadas (ver mais a respeito no parágrafo seguinte). Solidão esta representada também pela maneira como somos obrigados a encarar o jogo: sem ajuda, sozinhos, explorando muitas vezes a esmo.

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Há também uma grande tempestade que delimita até onde podemos  voar, e há também estranhas criaturas com cabeças em forma de pássaro (ou quem sabe trate-se apenas de uma máscaras). Espécies de sacerdotes de algum mundo esquecido/perdido, que acompanham o jogador ao longo da trama sempre à distância, algumas vezes intervindo, outras não.

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Voar na pele do pássaro é uma  experiência extremamente prazerosa. Com toques no botão “A” (utilizei o controle do Xbox 360) o pássaro bate suas asas, sendo também capaz de planar e de arremeter contra o solo a altíssimas velocidades.

É possível explorar o belo ambiente desértico à vontade, resolvendo os puzzles propostos na sequência que se bem desejar. O pássaro também emite um som (bem como o garoto), o qual é capaz de colocar maquinários estranhos em movimento, algo necessário quando estamos resolvendo algum quebra-cabeças.

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Ainda falando a respeito dos gráficos, é importante destacar que eles são extremamente charmosos, bonitos mesmo. Em low poly, tudo assume um ar mais interessante ainda, e as aventuras do “pássaro menino” (ou menino pássaro) fica ainda melhor.

Podemos considerar Vane como uma espécie de metáfora daquilo que acontece com nosso próprio mundo. Como uma espécie de analogia com os acontecimentos atuais, onde a tecnologia e o progresso, sempre presentes, algumas vezes se mostram mais danosos do que qualquer outra coisa. É meio que uma hipotética antecipação, quem sabe, de algo que poderia eventualmente acontecer ao nosso querido planeta.

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A imagem dos pássaros presos em gaiolas aguardando para serem libertados passa uma premente sensação de desespero, de angústia profunda, principalmente quando nos damos conta do que eles realmente são, e do que eles representam no game.

Tudo no título da Friend & Foe Games é extremamente sutil, delicado. O jogo brinca à todo instante com a ideia de que nada é imutável, bem como com o conceito de transformação. Transformado é o pássaro, dependendo da situação e da necessidade, e transformado é o pequeno garoto, também dependendo da ocasião.

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Vane lida com perdas, com a ideia de um mundo que talvez já tenha sido muito melhor e amistoso, com a necessidade de prosseguir sempre adiante, e jamais parece se desviar deste caminho, por mais tortuosos que sejam os obstáculos.

Existem momentos, no jogo, em que o ambiente ao nosso redor é transformado de forma soberba, tanto através de um determinado “poder especial” que adquirimos à partir de certo momento, quanto através de nossa própria “voz”.

Escadas surgem do nada, rochas se rearranjam para formar passagens e pontes, escadarias surgem à partir de amontoados de pedras antes dispostos de qualquer jeito, e caminhos são formados onde até pouco tempo atrás o vazio nos espreitava.

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No jogo, não existe nenhum tipo de bússola ou mapa, e temos que encontrar nosso caminho sozinhos, explorando, obtendo referências através dos cenários, etc. É certo que em determinados momentos tudo se torna bastante linear, mas em grande parte do tempo somos forçados a uma exploração que pode até mesmo cansar os mais afoitos.

Em Vane, não existem combates e tampouco existem armas. O foco do título é proporcionar ao jogador uma experiência “quase relaxante” e até mesmo etérea, em muitos momentos um tanto quanto misteriosa, também.

Vale ressaltar que à partir de determinado ponto do gameplay somos colocados em contato com outros seres, seres que compartilham dos mesmos interesses que nós mesmos, além dos estranhos “sacerdotes pássaros” acima mencionados.

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A trilha sonora do jogo, repleta de sintetizadores, também é extremamente digna de nota, capaz de ajudar bastante no clima viajante e fazer com que nos percamos na experiência sem desgrudar do controle (ou do teclado) até que tenhamos terminado o jogo.

A experiência também conta com uma certa dose de sacrifício, e o jogador pode ter uma ideia melhor de alguns porquês quando se depara com determinados acontecimentos finais, capazes de tirar o fôlego.

O jogo também tem lá seus problemas, verdade seja dita. Para começar, o controle não é detectado logo de início, sendo necessário desconectá-lo e reconectá-lo logo a seguir. Mas os desenvolvedores prometeram resolver este problema nas próximas atualizações do jogo.

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Além disso, existem algumas paredes invisíveis bem chatas, sem falar que meu personagem ficou preso no chão, com metade do corpo para fora, em mais de uma situação. Também pude detectar, infelizmente, ocasiões em que o pássaro ficava sem voz, e esta era necessária para que determinados puzzles fossem completados.

Isto foi um tanto quanto chato, principalmente devido ao fato de que Vane conta com um sistema de salvamento automático cujos checkpoints são bem distantes uns dos outros. Ou seja, é uma complicação bastante infeliz.

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À parte destes problemas, recomendo Vane a qualquer pessoa que tenha gostado, por exemplo, de Journey, de FAR: Lone Sails ou até mesmo de Planet Alpha. O jogo esconde diversos mistérios e belezas, e é capaz de deixar qualquer pessoa embevecida ao notar como são tratados os personagens e o próprio ambiente dentro do contexto da narrativa.

Se você está em busca de uma experiência leve, com puzzles simples, bonita, cativante e imersiva, dê uma chance a este muito mais do que especial indie game. Vane merece o seu tempo e a sua dedicação.

Ficha técnica

Título: Vane

Gênero: ação, indie, aventura, casual

Desenvolvedora: Friend & Foe Games

Publisher: Friend & Foe Games, Gamera Game

Data de lançamento: 15 de Janeiro de 2019 (PS4) / 22 de Julho de 2019 (PC)

Plataformas: PC, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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