Talvez fôssemos “perder” tempo demais listando aqui as obras baseadas ou derivadas do trabalho do escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft (ou simplesmente H.P. Lovecraft).

Considerado por muitos como o mestre do horror, mais especificamente de uma vertente conhecida como “Horror Cósmico”, Lovecraft inspirou artistas dos mais variados gêneros e vertentes, incluindo escritores, cineastas e músicos. Quem não se lembra, por exemplo, de IT: A Coisa, de Stephen King, ou de Re-Animator, ou até mesmo da maravilhosa faixa instrumental “The Call of Cthulhu”, do Metallica?

Pois os jogos eletrônicos não poderiam ficar longe de tamanha fonte de inspiração, e assim é que a Frogwares lançou sua obra baseada nos trabalhos de Lovecraft, o recém lançado jogo de investigação e horror com perspectiva em terceira pessoa The Sinking City, para Xbox One, PlayStation 4 e PC (aqui um exclusivo da Epic Games Store por 1 ano).

The Sinking City

The Sinking City coloca o jogador na pele do investigador particular Charles W. Reed, na década de 20, o qual vai até a cidade americana de Oakmont, em Massachusetts, à convite de um tal Johannes van der Berg, para tentar descobrir o que acontece com ele mesmo, uma vez que ele tem estranhos sonhos e visões aterrorizantes, todos eles, obviamente, “lovecraftinianos”.

Vale ressaltar que Reed é um ex-militar, tendo servido durante a Primeira Guerra Mundial, e que suas visões têm tudo à ver com Oakmont, uma cidade que sofre com uma inundação aparentemente sem explicação. Quaisquer possíveis explicações, entretanto, podem ser fundamentadas dentro do contexto da narrativa, no próprio mal que viceja no lugar.

Charles Reed também possui poderes um tanto quanto especiais: ele é capaz, por exemplo, de obter uma maior clareza enquanto observando os cenários e objetos ao seu redor (um recurso que o jogador pode utilizar constantemente).

The Sinking City

Tais poderes possuem um “custo”, entretanto: a própria sanidade do protagonista, algo que é representado, no jogo, a princípio, através de uma distorção naquilo que enxergamos, a qual vai aumentando gradativamente conforme mais e mais utilizamos os tais poderes especiais.

The Sinking City insere o jogador em um local bastante desolado e triste, além de complicado. Em parte devido à misteriosa inundação que causa grandes problemas à toda a população, e também devido a problemas ligados à xenofobia e ao racismo: várias raças vivem na cidade ou próximo a ela, e a convivência entre elas não costuma ser nada amigável. Além disso, todos aqueles de fora são automaticamente taxados como forasteiros indesejáveis e tratados de forma bastante deselegante, quando não mal-educada.

The Sinking City

O jogo mistura pequenas doses de ação com horror e investigação, tudo com perspectiva em terceira pessoa. Como Charles Reed, temos de conversar com diversos NPCs, buscar por pistas, visitar diversos locais espalhados por Oakmont, e tentar deduzir, com base naquilo que ouvimos e coletamos, o que está acontecendo.

Existem diversos diálogos que são travados entre o protagonista e os NPCs, e muitos deles são capazes de alterar o rumo da trama. Geralmente, várias escolhas são oferecidas ao jogador, e é importante ficar bem ligado no que acontece ao redor, bem tampouco em nosso histórico com determinados personagens (caso com eles venhamos a conversar mais de uma vez).

Em determinados momentos, o personagem principal também pode analisar os ambientes ao seu redor em busca de pistas, meio que revivendo os acontecimentos (é uma espécie de “filme fantasmagórico”).

São momentos em que podemos colocar na sequência correta (nada muito difícil) acontecimentos do passado, os quais passam então a fazer parte do nosso caderno de anotações e funcionando como pistas. Existe também o Palácio da Mente, local onde todas as pistas devem ser ordenadas a fim de que cheguemos a uma conclusão.

The Sinking City

Todas estas mecânicas reforçam o lado investigativo de The Sinking City, e o jogo até certo ponto funciona muito bem, principalmente devido à esplêndida ambientação, à cidade constantemente envolta em uma estranha névoa e onde temos muitas vezes que utilizar barcos para nos locomovermos, devido à inundação que ganha cada vez mais espaço.

É um fato, entretanto, que o jogo muitas vezes parece confuso, independentemente do nível de dificuldade que o jogador escolha. Locais alvo nem sempre são fáceis de serem encontrados, mesmo com as devidas indicações no vasto mapa de Oakmont, e a necessidade de atravessar diversas áreas à bordo de barcos, algo divertido a princípio, acaba cansando bastante com o tempo.

The Sinking City

Existem também problemas relacionados ao combate em The Sinking City: a mira acaba sendo imprecisa em alguns momentos, e a inteligência artificial dos monstros não é lá essas coisas – eles se lançam contra o personagem principal como loucos, sem qualquer intenção notória de esquiva ou até mesmo cuidado (mas tudo bem, eles são monstros, não é mesmo?).

The Sinking City também possui problemas relacionados ao sistema de colisão, e você também por muitas vezes se verá tentando subir em simples degraus por um tempo demasiado grande, pressionando o botão correto sem sucesso. E este tempo perdido, bem, digamos que em determinadas situações ele pode representar a diferença entre a vida e a morte.

Digamos também que o novo jogo da Frogwares cansa após um tempo: se você jogar sua primeira hora, terá uma ideia quase certeira daquilo que verá até o final da experiência, a qual dura entre 15-20 horas. Temos uma repetição de diálogos, escolhas, buscas, investigações, combates e horrores um tanto até que previsíveis, o que é uma pena, pois demonstra, além de falta de cuidado, um grande desperdício em relação aos temas em questão (a inspiração em Lovecraft).

The Sinking City

Além disso, ambientado em um mundo aberto até que grande, The Sinking City acaba falhando até mesmo neste aspecto: trata-se de um mundo vazio, repleto de NPCs com os quais não podemos conversar e/ou interagir. Cheio de casas fechadas. De locais inacessíveis. De muros invisíveis.

The Sinking City

Podemos observar os habitantes de Oakmont, por exemplo, claramente realizando suas tarefas diárias, indo para o trabalho, para a pesca, etc, mas nada mais podemos fazer além de nos dirigirmos aos pontos de interesse marcados em nosso confuso mapa. É um mundo vazio, oco, desprovido de vida até que nos encontremos com algum NPC chave, com o qual somos então capazes de dialogar.

Chama a atenção, entretanto, os belos gráficos do jogo, incluindo efeitos de partículas e iluminação muito bem feitos, além de texturas de primeiríssima qualidade. A névoa, sempre presente em diversas áreas de Oakmont, também é bastante verossímil, e ajuda a aumentar ainda mais o clima de mistério que envolve a cidade; e as expressões faciais de quase todos os modelos são muito bem trabalhadas, além disso. É uma pena, porém, que diversos deles sejam reaproveitados em diversos momentos.

The Sinking City

The Sinking City é um jogo de investigação e horror lovecraftiniano capaz de entreter a uma certa parcela de jogadores, mas que carece de maiores encantos que façam com que a grande maioria deles o coloque em sua lista de favoritos. A presença de Cthulhu não pode ser desmerecida, obviamente, mas a Frogwares poderia ter ousado muito mais em diversos aspectos.

A trama poderia ser mais profunda e rica, mais desdobramentos poderiam advir dos diversos diálogos que travamos ao longo do gameplay, e as mecânicas do jogo poderiam ter sido melhor trabalhadas.

É uma pena, acima de tudo, que o horror meio que seja deixado de lado, em prol de sistemas de investigação que não são lá muito convincentes, e que não funcionam muito bem, além disso.

Ficha técnica

Título: The Sinking City

Gênero: lovecraftiniano, aventura, investigação, horror

Desenvolvedora: Frogwares

Publisher: Bigben Interactive

Data de lançamento: 27 de Junho de 2019

Plataformas: PC, Xbox One, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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