Confesso que abordei Summer in Mara com a melhor das intenções. O jogo foi lançado para PC, via Steam, e para Nintendo Switch, no último dia 16 de Junho.

Colorido, charmoso, dotado de uma trilha sonora pra lá de carismática e alto-astral, o jogo do estúdio espanhol Chibig tinha tudo para me cativar. Eu disse “tinha”, porque ele acabou meio que se perdendo, ao longo do caminho, digamos.

Summer in Mara

Temos aqui uma espécie de mistura contendo elementos de um farming sim e também de aventura, além de crafting e leves pitadas de RPG. Isto sem falar em exploração, personagens simpáticos (há uma grande variedade deles), e gráficos fofos ao extremo.

Summer in Mara

Summer in Mara até pode ser comparado com My Time at Portia e Stardew Valley, isto não posso negar. Entretanto, falta ao jogo profundidade. Faltam “motivos propulsores” para continuarmos jogando.

Falta, no mais recente título da Chibig, uma alma. Falta uma “cola” que grude o jogador no game, por bastante tempo, afinal de contas, ele conta com rudimentos para ser também enquadrado como um simulador de fazendas, como dito acima.

Sobre Summer in Mara

Digamos que o jogo é uma obra repleta de boas ideias, porém falha na execução de muitas delas. O estúdio por ele responsável possui outros títulos, e até mesmo diz estar criando não jogos, mas sim um universo.

Summer in Mara

Summer in Mara faria parte, em tese, de tal universo, ao lado de Tiny planet (mobile), Ankora (mobile) – curiosamente, o nome de um planeta de onde veio um dos personagens do novo jogo – e Deiland (PS4 e PC).

Summer in Mara

Ao jogarmos o novo título da Chibig, a impressão que temos é a de estarmos em um eterno tutorial. Várias e várias mecânicas vão sendo “destiladas”, pouco a pouco, a conta-gotas, e com 4, 5, 8 horas de jogo, você ainda está aprendendo.

Isto acaba cansando o jogador, principalmente aquele mais afoito, pois verdadeiramente, o jogo não possui um tutorial. Na verdade, tal tutorial encontra-se “escondido”. Escondido por baixo de diversas missões, muitas delas bastante repetitivas.

Temos crafting, temos mineração, tempos também de lidar com plantações (árvores, vegetais e frutas diversos, etc), podemos vender e comprar itens os mais diversos, e também podemos cuidar de alguns animais.

Summer in Mara

Summer in Mara também coloca a protagonista Koa em contato com NPCs bem diferentes uns dos outros, cada um com suas respectivas personalidades, incluindo alguns que não hesitam em tirar proveito da inocência da pequena garota.

Summer in Mara

O jogo foi também financiado através do Kickstarter, onde arrecadou mais de 230 mil Euros. É bem verdade que podemos perfeitamente jogar de acordo com nosso próprio ritmo, conforme é dito na referida página.

História

Não há pressa. Não há perigo. Vilões são praticamente inexistentes, e até mesmo aqueles com os quais travamos conhecimento no jogo mais se parecem com criaturinhas fofas e birrentas, das quais foi retirado à força algum tipo de doce delicioso.

Não me entenda mal: o jogo tem, sim, suas qualidades. Entretanto, o “pacote” como um todo, digamos assim, é falho. Em Summer in Mara, encarnamos a pequena e adorável Koa, garota que foi resgatada de um naufrágio por Yaya Haku.

Summer in Mara

Haku pertence à raça dos Qüido, e no jogo, estamos no planeta Qü. Mara é um grande oceano repleto de ilhas, sendo que uma delas é a nossa ilha. A ilha para a qual a pequena Koa é trazida, ainda bebê, e onde cresce e vive junto daquela que passa a considerar como sua avó.

Estimo que Koa deva ter, quando o jogo inicia realmente (após a cutscene inicial), algo em torno de 9 – 10 anos. Ela é extremamente curiosa, ávida por descobrir novas coisas, e não esconde seu encantamento por tudo aquilo que a rodeia.

Summer in Mara

No meio disto tudo, a pequena garota tem como tutora, inicialmente, a sábia Yaya Haku, a qual lhe ensina o valor das pequenas coisas e também a necessidade de sempre retribuir a natureza conforme dela tomamos recursos.

O título conta com diversas lições neste sentido, bem como com várias instigações filosóficas a respeito de uma série de valores e elementos do cotidiano, e aqui posso dizer que a Chibig realizou um belíssimo trabalho.

Replantio, por exemplo, é algo que está sempre em pauta, valendo a pena lembrar que a “Ilha Casa” é o porto seguro de Koa, local para o qual ela sempre pode (ou deve, dependendo do caso) retornar, entre uma quest e outra.

Jogando Summer in Mara

Aqui começam os problemas. Koa rapidamente se vê às voltas com uma série de missões, primárias e secundárias, grande parte das quais servem de tutoriais para a introdução de novos recursos e mecânicas.

Summer in Mara

O problema é que isto parece quase que um ciclo se fim, e mesmo após várias horas de jogo, você se verá no meio de quests bastante repetitivas, do tipo “vá ali, entregue tal coisa e eu te darei determinado item”. E assim por diante.

A quantidade de missões durante as quais temos de fazer favores para NPCs em troca de benefícios é enorme, e não há uma variedade suficiente entre elas.

Obviamente, muitas exigem o plantio de determinadas hortaliças e ou frutas, por exemplo, e aí então é necessário que retornemos à nossa Ilha Casa para o devido plantio e colheita.

Summer in Mara

Um determinado NPC, aliás, chamado Onzo (uma criança-gato), nunca viu uma abóbora em sua vida. Pois bem, podemos tentar adquirir tal item junto ao comércio local ou então plantá-lo e aguardar o tempo necessário em nossa ilha.

Obs: para a posterior entrega a Onzo.

Em nossa Ilha Casa, existe também uma caverna misteriosa não aberta há muito tempo, além de espaço para plantio de árvores e vegetais e criação de animais.

Podemos até mesmo plantar árvores com fins decorativos, por exemplo, valendo sempre a pena lembrar que recursos ali são praticamente infinitos: basta o raiar de um novo dia para que a “mágica” aconteça.

Obs: o jogo conta com ciclos dia/noite completos. Koa se cansa, aliás, mas os efeitos de tal cansaço são bastante rasos: ela apenas adormece e acorda novamente, com um pouco de sua barra de vigor preenchida. Dormindo em sua casa, ela está pronta para novas aventuras.

Para que jazidas de minerais reapareçam, para que árvores frutíferas deem frutos novamente, etc. Summer in Mara é uma espécie de tutorial infinito, e mesmo a fabricação de itens é algo bastante superficial.

Summer in Mara

Recebemos receitas de vários NPCs, e é sempre muito fácil obter os itens desejados, seja através do modo tradicional (mineração, colheita, etc), seja através do comércio.

Cansaço em Mara

Qälis é a primeira ilha do arquipélago com a qual temos contato. Trata-se de uma ilha a princípio muito bonita, porém que carece de personalidade e de vida.

Vemos poucos NPCs espalhados pelas ruas, e as diversas construções ali existentes são meramente “decorativas”. Salvo um ou outro “gato pingado” (quase literalmente), ou alguns cães, com os quais podemos interagir (além dos NPCs), Qälis é, de certa forma, desprovida de alma.

Summer in Mara

Chega um ponto, em Summer in Mara, em que você começa a se perguntar qual o sentido de tudo aquilo. Você começa a se perguntar o porquê de estar realizando tantas tarefas repetitivas.

Mesmo após muitas horas de jogo, você ainda segue repetindo o mesmo estilo de missão: conversar com o personagem X, sair em disparada em busca de algo que ele deseja, e então entregar a ele o tal item.

E isto se repete, vezes sem fim, por horas e horas. Obviamente, sempre podemos dar uma escapada para nossa Ilha Casa, onde Koa foi criada, e lidar com plantação, crafting, mineração, etc.

Summer in Mara

Também podemos navegar pelo grande oceano de Mara e descobrir novas ilhas; Koa sente também um grande desejo de explorar, de navegar (sim, temos um barco à nossa disposição, o qual pode ser inclusive aprimorado), etc.

Algumas considerações finais

Como eu disse acima, eu tentei de todas as formas possíveis imergir no mundo de Summer in Mara. Tentei gostar, verdadeiramente, do game. Tentei por várias horas.

O jogo, como eu já disse, está repleto de ótimas ideias. Apenas sua execução foi bastante falha. O esquema das quests primárias e secundárias (se é, também, que podemos distinguir umas das outras) é também extremamente cansativo.

Koa, afinal de contas, muitas vezes acaba se transformando em uma “mera garota de recados”, ou então em uma espécie de “entregadora”. E isto é bastante triste, para um jogo tão fofo.

Sim, os gráficos de Summer in Mara são lindíssimos, assim como linda é sua trilha sonora, a qual me fez lembrar, em vários momentos, da OST de Pokémon Sword.

Enfim, uma bela ideia desperdiçada com uma execução falha ao extremo. Juro que tentei gostar do jogo, mas…

Ficha técnica

Título: Summer in Mara

Gênero: Aventura, Simulação de Fazenda, Simulação

Desenvolvedora: Chibig

Publisher: Chibig

Lançado em: 16 de Junho de 2020

Plataformas: PC, Nintendo Switch

Versão analisada: PC

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