Ao longo dos últimos 4 anos, passei por momentos extremamente complicados, incluindo a perda de 3 entes muitíssimo queridos. Isto além de diversas “peripécias” que a vida me pregou, é claro, incluindo também um certo evento bastante traumático.

Com tudo isto em mente, encarei Spiritfarer (site oficial), jogo do estúdio canadense Thunder Lotus Games, à princípio com um certo medo. Entretanto, tão belos, delicados e gentis são os elementos nele presentes, que muito rapidamente me deixei levar por seu enorme encanto.

Spiritfarer

Spiritfarer foi lançado no último dia 18 de Agosto, para consoles e PC, e foi justamente a versão para PC que joguei. Aliás, foi também no PC que joguei e analisei GRIS, outra obra prima indie, lançada em 2018.

O game da Thunder Lotus Games também lida com um tema bastante complicado, porém consegue transmitir ao jogador, durante o gameplay, uma singeleza enorme. Uma enorme sensação de que tudo vai ficar bem, no final.

Spiritfarer

O título conta com lindos gráficos desenhados à mão, e além disso, com uma protagonista “muda”, que apenas ouve as palavras de vários NPCs encontrados ao longo da narrativa. Stella, a protagonista, nada fala, porém é capaz de fazer muitas outras coisas. Coisas, detalhes, que agregam bastante ao enredo, como você perceberá.

Vale ressaltar, aliás, que este é o terceiro título da Thunder Lotus Games, estúdio também responsável pelos excelentes Jotun e Sundered. Porém, em sua terceira empreitada, o estúdio nos entregou um trabalho que, em minha opinião, é uma verdadeira obra prima.

Spiritfarer

Um dos melhores indie games lançados em 2020 (senão o melhor). Um trabalho muito mais do que excelente. Primoroso, lindo, verdadeiramente encantador, e capaz de nos levar às lágrimas em diversos momentos. Aliás, seu simpático tema musical principal “gruda” em nossos ouvidos. Lindo. Tocante. Suave. Imperdível.

Spiritfarer

Na serraria com o tio…

A morte sob outra perspectiva

Em Spiritfarer, Stella, a personagem principal, recebe do próprio Caronte, o barqueiro dos mortos (ou barqueiro dos espíritos), a Luz Eterna. E assim, se torna sua substituta. A figura soturna e encapuzada, digamos, está se “aposentando”.

Stella, a qual podemos certamente supor que também está morta, conta com um companheiro em sua aventura, o simpático gato Daffodil, e se seguirmos as coisas à risca, podemos também supor que à partir daí, e também de acordo com a mitologia grega, ela navegará com seu barco através do rio Estige.

Na verdade, mais parece que estamos em um enorme oceano, e o mapa, o qual vai sendo “expandido” aos poucos, conforme evoluímos no jogo, é também bastante grande.

Spiritfarer

Stella se torna, portanto, alguém cuja incumbência é ajudar outros espíritos a fazerem a passagem com mais tranquilidade. Como uma espécie de condutora de espíritos, a garota deve acolher em seu barco espíritos os mais diversos, deles cuidar durante certo tempo, e também atender a seus últimos desejos, até que o “momento final” chegue.

Isto sem falar que a personagem principal também deve ajudá-los a resolver quaisquer pendências que porventura tenham sido deixadas para trás. É, o trabalho é enorme, em Spiritfarer.

Spiritfarer

Diálogos são travados entre a personagem principal e os diversos espíritos abrigados no barco, o qual pode também ser expandido e até mesmo receber diversas construções, incluindo moradias, forjas, roçados, tecelagens, cozinhas, etc.

Temos aqui um singelo e espetacular jogo de gerenciamento. Um que lida com um elemento que, para muitos, é um enorme tabu. De forma direta porém elegante, sem rodeios e ao mesmo tempo transformando toda a experiência em algo extremamente singelo.

Spiritfarer

Jogando Spiritfarer

Stella pode “singrar os mares” com seu barco e visitar locais diferentes, variando entre cidades a ilhas não povoadas, passando por fazendas, locais repletos de indústrias e até mesmo mansões pomposas.

Cada espírito acolhido deve “pagar sua passagem” com um óbolo, e se nos voltarmos novamente para a mitologia grega, compreenderemos que este era também o “preço” que os mortos deviam pagar ao Barqueiro para que ele os conduzisse até o reino dos mortos.

Spiritfarer

O óbolo, em Spiritfarer, entretanto, é algo brilhante, da mesma forma que a Luz Eterna recebida por Stella das mãos do próprio Caronte. A menina até brinca com tal “ferramenta” quando a deixamos sem ação alguma por algum tempo, mas a Luz também pode se transformar em diversos outros objetos.

Spiritfarer

Em uma foice para “dar conta do recado” na horta, em um remo para o barco que conduzirá Stella e Daffodil a alguma ilha ou porto, em luvas para a retirada de algum prato recém cozido no forno, em um regador, quando na horta, e assim por diante.

Spiritfarer

Pouco a pouco, conforme o jogador vai evoluindo e descobrindo novos elementos, o barco de Stella pode ser expandido, e assim receber mais espíritos e mais construções. É um fato, vale destacar mais uma vez, que a morte, no jogo, jamais é vista como algo “terrível”, como algo “funesto”.

Spiritfarer

Pelo contrário: tudo é tratado de forma direta porém delicada, gentil e bela. Até mesmo temas como suicídio, por exemplo, são devidamente trabalhados para que o jogador não fique com nenhuma má impressão. Fique tranquilo.

Gerenciamento e diversão no pós-vida

E sendo um jogo de gerenciamento, é óbvio, por exemplo, que teremos que visitar diversas ilhas a fim de cortar madeira, a qual deverá posteriormente ser processada em uma serraria que deverá ser construída em nosso barco.

É também óbvio que teremos de lidar com os últimos desejos de nossos passageiros, antes que estes sejam levados ao Portal Eterno, e assim finalmente entregues ao delicado abraço da morte.

Stella terá, por exemplo, que atender a determinados pedidos de determinados passageiros, os quais podem incluir, por exemplo, certos pratos em específico, ou até mesmo visitas a certos lugares.

Spiritfarer

A simpática porém muda garota acaba tendo que visitar estaleiros, por exemplo, para ampliação de seu barco. Um destes locais conta com um certo tubarão como proprietário, o qual, apesar de ser um tanto quanto grosseiro, oferece lá suas tiradas satíricas muito bem vindas.

Obs: vou ser sincero aqui: não é um problema o fato de Stella não falar – os NPCs acabam se tornando os verdadeiros “protagonistas”, digamos, cada um com sua devida “bagagem” – anseios, lamentações, dúvidas, temores e histórias.

Spiritfarer

Spiritfarer também conta com elementos de plataforma, inclusive dentro de nosso próprio barco. Stella pode ir adquirindo habilidades, pouco a pouco, as quais são pagas com os óbolos que ela recebe, e estas incluem pulos duplos e até tirolesas.

Spiritfarer

O barco pode ser bem “verticalizado”…

Spiritfarer, entretanto, acaba sendo um jogo que faz com que pensemos bastante na própria morte em si, mesmo com seus elementos de gerenciamento, plataforma, diálogos aos montes e NPCs interessantíssimos.

Algumas considerações finais sobre Spiritfarer

O novo jogo da Thunder Lotus Games é uma obra prima. Ele consegue lidar com um tema tão delicado e assustador (e para muitos, um tabu) de uma forma extraordinária, inserindo leveza nos momentos certos e gentileza quase que em todos os momentos.

A morte é, certamente, a única certeza que temos nesta vida, e eu sei que esta frase é um clichê. Entretanto, Spiritfarer brilha justamente por tratá-la como apenas uma passagem. De forma similar ao que acontece em algumas culturas e religiões.

Independentemente de nossas crenças (ou não) no pós-vida, Spiritfarer deve ser encarado com gosto, com a mente aberta e com a certeza de uma coisa: pelo menos aqui, o destino final de cada um é motivo de lágrimas e de saudades, porém com alegria e leveza.

Obs: ah, sim: o jogo conta com diálogos em português do Brasil, dentre outros idiomas.

Ficha técnica

Título: Spiritfarer

Gênero: Gerenciamento, Aventura, Construção

Desenvolvedora: Thunder Lotus Games

Publisher: Thunder Lotus Games

Lançado em: 18 de Agosto de 2020

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch, Google Stadia

Versão analisada: PC

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