Mosaic é um jogo desenvolvido pela Krillbite Studio, empresa sediada na Noruega, e publicado pela Raw Fury. Trata-se de um indie game bastante especial e atmosférico, capaz de provocar inúmeras interpretações, dependendo do jogador em questão.

Em meio a tantos lançamentos AAA e outros indies de maior peso, é muito provável que você tenha deixado “passar batido” este belo título. Um game independente barato e com uma narrativa bastante forte. Uma verdadeira joia rara, digamos.

Mosaic

Lançado no Steam e no GOG no último dia 05 de Dezembro, Mosaic é um jogo bastante peculiar. A começar pelo protagonista, sem nome e diferente de todos os demais personagens do jogo: ele veste uma camisa branca, enquanto todos os NPCs do jogo se vestem de cinza escuro.

Estamos imersos, em Mosaic, em uma estranha realidade. Rodeados por um mundo cinzento, frio, no qual as pessoas pouco se comunicam. Um mundo, aliás, onde cheguei a vislumbrar algumas semelhanças com 1984 e com Matrix. Mas é como eu disse acima: trata-se de um jogo capaz de levar a inúmeras e diferentes interpretações.

Mosaic

Mosaic é focado na narrativa, apesar de não existirem diálogos. Ou melhor: existem algumas sequências com diálogos (escritos), durante as quais podemos conversar com um pequeno peixe dourado – momentos verdadeiramente surreais!

Sim, um pequeno peixe que, aparentemente, é muito mais do que aquilo que aparenta ser a princípio, e que faz alguns questionamentos bastante interessantes e instigantes ao protagonista.

O protagonista, aliás, vive uma vida “cinzenta”, assim como é cinzento, quase monocromático, o mundo que o rodeia. Ele acorda todas as manhãs, com o alarme do celular tocando, e tem então de se dirigir ao trabalho.

Mosaic

Antes, porém, ele tem de ajeitar o cabelo e arrumar a gravata. No caminho até a porta de saída de seu apartamento, é possível verificar a geladeira vazia e assistir a uma televisão que parece exibir sempre o mesmo enfadonho programa.

Também é possível checar as faturas sobre a mesa (todas vencidas), além de mensagens constantes de seu empregador, a Mosaic Corp., as quais contêm sempre algum tipo de ameaça, seja de corte no salário, seja de demissão caso as metas não sejam atingidas.

Mosaic

Vale ressaltar que em Mosaic tais metas são na verdade o objetivo do trabalho do personagem principal, e elas acontecem através de uma espécie de puzzle no qual temos de alimentar um servidor sempre voraz e faminto por recursos.

Mosaic

Através de nós hexagonais, temos de levar recursos, na forma de pontos irrequietos, até o servidor que se encontra mais acima, lidando, no meio disto tudo, com a criação de mais fontes de recursos e também com “ameaças” ao sistema, na forma de bolhas coloridas que, obviamente, destoam daquele mundo cinzento no qual nos encontramos.

Com seus gráficos em low-poly, Mosaic é um jogo bonito, agradável e leve. Nele, o personagem principal é o único que possui olhos: todos os NPCs não possuem olhos em suas faces carrancudas.

Mosaic

Isto talvez seja uma forma de Mosaic dizer que o protagonista é alguém especial, importante, dentro do contexto do jogo e do mundo no qual ele se encontra inserido. Alguém capaz de enxergar coisas que os outros não conseguem.

Neste mundo frio, tecnológico e repleto de outros seres que realizam as mesmas tarefas monótonas todos os dias, o personagem principal tem seu primeiro contato com uma outra realidade quando resolve salvar um gatinho que se encontrava no alto de uma árvore: neste momento, acontecimentos estranhos têm início, cores invadem o ambiente, e à partir daí cada vez mais acontecimentos similares são visualizados.

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Em suas rotinas diárias, é notório o modo como todos os habitantes daquele mundo triste e, quem sabe, dominado por algum tipo de regime totalitarista, agem. Todos caminham do mesmo jeito, no mesmo ritmo, e o jogo faz questão de deixar bem claro o quão gigantesco é o conformismo e a monotonia, ao afastar a câmera de maneira tal, em momentos chave, de modo a fazer com que o jogador perceba que está imerso em algo imenso, rígido, calculista e incapaz de qualquer tipo de sentimento.

Existe até um jogo em Mosaic, acessível e jogável através do smartphone do protagonista, chamado BlipBlop (atingi o nível 30 em tal jogo, diga-se de passagem), que deixa bem claro o quão chata é a vida naquele mundo. BlipBlop é verdadeiramente monótono; no entanto, ele tem lá seu charme e apelo, ao pender para o lado competitivo das pessoas, sempre buscando maiores pontuações.

BlipBlop, aliás, é um exemplo de elemento que transcende uma mídia em específico: o jogo existe de verdade, e está disponível para dispositivos Android e iOS. Ah, sim, o site da Mosaic Corp. também existe, e você pode até mesmo responder a uma pesquisa de satisfação, como se fosse um verdadeiro funcionário da megacorporação.

Mosaic

Pouco a pouco, no jogo, você vai percebendo e lidando com outros tipos de “perspectivas”, digamos. Isto em meio ao seu trabalho diário, o qual é o chatíssimo porém necessário puzzle acima mencionado.

Há o envolvimento com determinados elementos coloridos, vale destacar, os quais, além de representarem grandes dissonâncias em relação à realidade na qual vive o protagonista, proporcionam momentos em que podemos observar o mundo à partir de outras perspectivas.

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Tais perspectivas, é importante frisar, são até mesmo essenciais em determinados momentos de Mosaic, momentos em que somos meio que obrigados a “abrir nossos olhos” mais ainda e enxergar as coisas sob uma outra ótica.

Mosaic é um jogo que lembra bastante, a princípio, um point-and-click, mas que, diferente deste gênero, permite uma maior liberdade de movimentação por parte do personagem principal.

O jogo conta com uma trilha sonora, além disso, bastante enfadonha, salvo nos diversos “momentos coloridos”, quando o protagonista embevecido à tudo observa e parece concordar. Tudo bastante de acordo, entretanto.

O jogo possui uma atmosfera um tanto quanto sombria. Soturna, verdadeiramente. É um fato inegável que os desenvolvedores de Mosaic desejavam forçar algo assim ao jogador: com bastante frequência, a câmera se afasta bastante, o suficiente para observarmos grandes engarrafamentos, enormes, imponentes e opressores edifícios, grandes ruas apinhadas de gente, e assim por diante.

Mosaic

Há enorme tristeza naquele mundo, também. Tristeza que pode ser vista e sentida, até mesmo com a morte de uma bela e colorida borboleta, a qual proporcionou alguns momentos de embevecimento ao protagonista sem nome.

O protagonista, porém, pouco a pouco começa a mudar. Digamos que as sementes para tal mudança já se encontravam nele inseridas desde o princípio. Digamos, quem sabe, que a mudança era algo a ele inerente.

O fato é que ele muda, pouco a pouco, ao longo das 3 – 5 horas de jogo, e meio que contesta, de certa forma, aquela triste e escura realidade na qual vive (o fato do mesmo possuir olhos, ao contrário da enorme multidão que o rodeia, também diz muito).

Mosaic

Pouco a pouco o personagem principal de Mosaic sai de sua zona de conforto e parte em direção a uma jornada sem volta. A um “fim” que pode deixar o jogador com a sensação de um soco no estômago, terminado o gameplay.

Mosaic

Se você gosta de jogos focados na narrativa, que convidam você a pensar em diferentes explicações para um mesmo evento, e que lidam, de certa forma, com a rotina cansativa e repetitiva de muitos de nós de uma maneira muito mais do que especial, Mosaic é um prato cheio. Muito mais do que indicado! Confira!

Ficha técnica

Título: Mosaic

Gênero: aventura, atmosférico

Desenvolvedora: Krillbite Studio

Publisher: Raw Fury

Data de lançamento: 05 de Dezembro de 2019

Plataformas: PC

Versão analisada: PC

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