É difícil, não é, quando você termina um jogo e fica triste. Triste não porque a experiência foi ruim, mas sim pelo contrário: triste porque ela foi estupenda e acabou. Porque você gostaria de reviver aqueles momentos, aqueles combates, aquelas sensações, aqueles personagens, aqueles cenários de horror, aqueles ambientes e gráficos lindíssimos. Tudo bem que um segundo playthrough resolve tal “problema”, mas aí não seria a mesma coisa. Bem, com Metro Exodus, jogo que será lançado amanhã, 15 de Fevereiro de 2019, foi assim. Pelo menos comigo.

Metro Exodus

Terminei o jogo ontem à noite, e enquanto os créditos subiam, uma mescla de sentimentos me envolvia: embevecimento, melancolia, alegria, surpresa, etc. Emoções bastante fortes, causadas por um jogo eletrônico desenvolvido com extremo esmero pela ucraniana 4A Games, empresa criada há mais de 10 anos por Oles Shishkovstov e Alexander Maximchuk, ex-funcionários da GSC Game World, responsável pela franquia S.T.A.L.K.E.R.

Metro Exodus conta com uma fortíssima e muito bem desenvolvida ambientação pós-apocalíptica, algo que pode ter origem na experiência de seus fundadores com a franquia S.T.A.L.K.E.R. Mas temos aqui um contexto e uma ambientação totalmente diferentes, obviamente, sem falar que o título é totalmente baseado na obra do escritor russo Dmitry Glukhovsky.

Metro Exodus

No jogo, ambientado em 2036, cerca de 25 anos após a grande guerra nuclear que devastou a terra, encarnamos o personagem Artyom, um cara que tem um grande sonho: abandonar os soturnos metrôs e encontrar um local habitável e livre da radiação que grassa em Moscou. Um local na superfície, onde ele e seu povo possam viver em paz.

Metro Exodus

Artyom, na verdade, enfrenta resistência de muitos dos seus devido a tal sonho, e devido também às expedições solitárias que empreende na superfície. Todos no metrô acreditam que não sobrou mais ninguém vivo, lá fora, e que os velhos e tristes túneis são tudo o que lhes resta. Mas o protagonista do jogo pensa diferente, e fará de tudo para provar sua teoria, para transformar seu sonho em realidade.

Metro Exodus é uma mistura entre FPS, survival horror e ação furtiva. O jogo, diferentemente do que acontece com seus antecessores, não é mais tão linear. Ao contrário daquilo que vimos em Metro 2033 e Metro: Last Light (ambos também analisados aqui no XboxPlus), temos ambientes maiores, mapas maiores, níveis onde a linearidade é abandonada quase que por completo. Isto sem falar em novidades muitíssimo bem vindas.

Somos capazes de caminhar por vastos mapas e explorar bastante em busca de recursos, recursos estes necessários para o crafting, muito bem implementado e simples, por sinal: basicamente, temos que encontrar matéria prima para a criação de filtros de ar, kits médicos, munição e outros itens tão ou mais importantes durante o gameplay.

Metro Exodus

E não se preocupe: se a munição é sempre escassa, abundantes são os recursos para sua criação, desde que, é claro, exploremos bastante, ato que pode sempre resultar em mais momentos bacanas durante o jogo.

Ambientado em um grande mundo aberto, Metro Exodus é verdadeiramente brilhante ao lidar com o tema “pós-guerra nuclear”. O trabalho da 4A Games ao criar tal mundo é verdadeiramente surpreendente, e a história acontece ao longo de um ano inteiro, atravessando as quatro estações com as devidas mudanças climáticas capazes de alterar drasticamente o gameplay.

Metro Exodus

Se existem problemas em Metro Exodus, estes estão ligados principalmente às limitações impostas ao jogador no que diz respeito ao tamanho dos mapas. Veja bem: os mapas são grandes, mas não o suficiente (não se trata de um game de mundo aberto “de verdade”), e em muitos momentos acabamos explorando e descobrindo que tudo com o que temos de lidar ao chegarmos ao nosso objetivo são mais inimigos para matar, mais monstros para eliminar.

Faltou um pouco mais de esmero no tocante às missões secundárias (sim, elas existem), uma vez que elas acabam quase sempre se transformando em mais do mesmo, em mais tiroteios, em mais oportunidades para matar inimigos de forma sorrateira, e só.

Metro Exodus

Também presenciei problemas com armas e inimigos flutuando no ar, ou com corpos e outros tipos de objetos enfiados nas paredes. Isto sem falar nas longas telas de loading (pelo menos no PC), o que acaba chateando um pouco. O excesso de conversa também acaba atrapalhando um pouco, vale dizer: você está lá, prestes a iniciar uma missão, e o Miller ou a Anna insistem em ficar falando por minutos a fio. E quando você está, então, bem no meio de um acampamento inimigo, e ouve a mesma conversa por várias e várias vezes?

Metro Exodus

Mas tudo bem. Como se trata de um jogo fortemente focado em sua narrativa, e dadas suas outras e excelentes qualidades, todos estes problemas acabam até mesmo passando desapercebidos.

Bem, tão logo começa a colocar seus planos em prática, Artyom rouba uma locomotiva de uma facção conhecida como Hansa, uma das mais poderosas do metrô de Moscou. Tal locomotiva acaba sendo batizada de Aurora, e é com ela que o protagonista, sua esposa Anna, o Coronel Miller e mais alguns homens, mais alguns Espartanos, fogem de Moscou, em busca de novos horizontes (personagens estes, veja bem, também presentes em Metro 2033 e Metro: Last Light).

Metro Exodus

Todos acabam percebendo bem rapidamente que existem locais habitáveis na superfície. Que existem outros seres humanos vivendo ali em cima, sobrevivendo como podem, à duras penas. Uma grande mentira, aliás, é descoberta por Artyom pouco antes de deixar Moscou à bordo da Aurora, e tal fato acaba trazendo grandes problemas ao grupo como um todo, durante grande parte da história.

O tal “mundo lá em cima” tão sonhado por Artyom acaba se mostrando também repleto de perigos. Durante o jogo, atravessamos, como já dito acima, as quatro estações do ano, mas vale lembrar que a história começa no inverno de Moscou e termina também no terrível inverno de Novosibirsk, a Cidade Morta, onde tudo acaba.

Metro Exodus

Atravessamos o lindíssimo e perigoso Deserto Cáspio (outrora o Mar Cáspio), onde sucatas de grandes e velhos navios ainda podem ser vistas, e onde tempestades de areia furiosas acontecem com grande frequência, representando ao mesmo tempo um espetáculo assustador e motivos para mais preocupações (principalmente durante tiroteios), passamos por pântanos e florestas, além de velhas cidades e construções em ruínas, e somos capazes, em meio a isto tudo, de observar como a radiação foi capaz de criar mutantes e bestas os mais diversos.

Metro Exodus

Cada local, em Metro Exodus, conta com sua própria fauna e flora, sendo que  muita coisa foi criada e/ou afetada pela radiação. Cada zona que atravessamos conta com sua própria coleção de monstruosidades, além de facções diversas que muitas vezes acabam atrapalhando bastante a vida de nossos heróis. Embora não tenham o mesmo nível de complexidade das facções encontradas no metrô de Moscou, é notório que os grupos que encontramos acabaram desenvolvendo, ao longo do tempo, maneiras próprias de lidar com ameaças, sem falar em estranhezas as mais diversas.

É assim, por exemplo, que nos deparamos com mercadores de escravos liderados por alguém que se autointitula “Barão”, escoteiros armados que foram inicialmente pegos em seus acampamentos tão logo a grande guerra foi iniciada, vários tipos de bandidos, canibais que tentam transformar o protagonista e seu grupo em um estranho jantar, e fanáticos “religiosos” que veneram um grande peixe monstruoso, além de acreditarem que a tecnologia é nociva (liderados pelo carismático pregador Silantius).

Metro Exodus

Os momentos de ação acontecem enquanto a Aurora (que acaba recebendo mais vagões ao longo do tempo) está parada, seja por problemas técnicos ou para que alguma missão seja empreendida. São nestes momentos, quando o personagem principal dela se afasta, sozinho ou na companhia de mais alguém do grupo, que nossos nervos são postos à prova.

Metro Exodus

Vale ressaltar também a grande ligação com o grupo, e o grande carisma de todos: todos ali se importam com todos, e isto acaba funcionando como uma espécie de liga poderosa que amarra e reforça ainda mais diversos pontos da narrativa.

Artyom não está sozinho, ele sabe disso, e em mais de um momento sua vida é salva por algum de seus amigos. Durante a jornada em busca de um local seguro para viver, o protagonista e seu grupo, incluindo sua esposa e seu sogro, passam por maus bocados, vidas são perdidas, amigos são feridos e situações dramáticas acontecem.

A história de Metro Exodus é verdadeiramente empolgante e épica, além de jogar na cara do jogador, algumas vezes, consequências oriundas de seus atos ao lidar com as diversas ameaças apresentadas. Agir ou não furtivamente, causar mais ou menos mortes, nocautear ou assassinar furtivamente os inimigos: tudo isto pode alterar o rumo dos acontecimentos, e são totalmente perceptíveis os momentos em que “recebemos o troco”.

Metro Exodus

Não faltam também momentos emocionantes e dramáticos. Cutscenes repletas de delicadeza e enlevo, personagens que nos emocionam com demonstrações de apreço, carinho ou amor. Artyom tem a seu lado um grupo realmente engajado, que chega a enxergá-lo como um verdadeiro herói e líder, proporcionando a ele mais motivos para correr em busca de seu sonho, o tão aguardado local habitável e totalmente livre de radiação.

O sobrenatural continua presente, vale ressaltar, principalmente na última missão. Podemos claramente observar fantasmas, e Artyom chega a ter visões bastante estranhas em determinados momentos, visões estas, aliás, totalmente dentro do contexto. As tão conhecidas anomalias da série também marcam presença em Metro Exodus, e uma delas é capaz até de fazer com que nossa lanterna pare de funcionar.

Metro Exodus

O novo título da 4A Games não brinca em serviço, e consegue nos entregar uma atmosfera sombria e melancólica durante grande parte do tempo. É como se a guerra nuclear tivesse feito descer um negro véu sobre a humanidade, transformando tudo e todos, misturando sentimentos, deixando, muitas vezes, a escuridão mais forte do que a luz.

Mesmo em meio ao ensolarado deserto do Cáspio, tais sensações não nos abandonam, principalmente quando nos damos conta de quem vive ali, do que eles fazem, e do que outrora havia ali. Mas também não faltam, apesar do novo mundo aberto, na superfície, momentos claustrofóbicos e escuros dentro de velhas instalações militares e até mesmo em metrôs que há muito tempo não contam com a presença de seres humanos.

A ambientação pós-apocalíptica é digna de nota. E a maneira como a desenvolvedora conseguiu criar contrastes entre as diversas áreas que podemos explorar é notável. Em determinados momentos estamos caminhando a céu aberto, sob chuva torrencial, quem sabe (o jogo conta com alterações climáticas dinâmicas, além de ciclos completos de dia e noite), e pouco tempo depois adentramos escuros subterrâneos ou áreas repletas de radiação, quando temos então de utilizar nossas máscaras de gás e ficar de olho na duração dos filtros, trocando-os de tempos em tempos (sim, máscaras de gás e filtros continuam importantíssimos neste novo jogo da série).

Metro Exodus

Vale destacar também o novo sistema de customização de armas. É possível customizar totalmente qualquer uma das 3 armas equipadas, à qualquer momento, on-the-fly, mesmo, bastando para tanto abrir a nova mochila do protagonista.

Podemos instalar e desinstalar diversos itens, como por exemplo coronhas, miras, canos, tambores, etc. Assim, por exemplo, você pode utilizar um rifle normalmente, com uma mira red dot, e rapidamente removê-la e instalar uma mira telescópica, transformando a arma em um rifle de precisão, para atingir algum inimigo mais distante ou em pontos mais elevados. Isto acaba adicionando uma camada extra de dinamicidade ao jogo, o que é muito bem vindo e facilita (além de divertir) bastante a vida do jogador.

É possível alterar drasticamente qualquer uma das armas, através de elementos encontrados ao longo do gameplay. Assim, você pode aumentar o dano que elas causam, a capacidade de armazenar munição, aumentar a precisão, reduzir o tranco, etc. É muito bacana.

Além disso, em bancadas encontradas em diversos pontos, é possível limpar as armas (armas sujas acabam sendo prejudicadas, tendo sua eficiência reduzida e chegando a emperrar), fabricar mais munição à partir de itens obtidos durante o looting, fabricar granadas e coquetéis molotov, e também consertar a máscara de gás.

Metro Exodus

Obs: a única bancada que permite a substituição das armas que carregamos é aquela presente na Aurora, portanto, muita atenção antes de sair para uma missão.

As armas pneumáticas continuam presentes, com todas as suas vantagens e problemas (temos de bombear ar de tempos em tempos, para que elas funcionem), e a Tikhar é extremamente versátil e útil. Ela também pode ser transformada em um rifle de precisão, pode ter uma mira laser acoplada, e pode também disparar projéteis explosivos – eu diria até que esta foi a arma que mais utilizei, durante o jogo todo, pelo menos contra inimigos mais fracos.

Ainda a respeito do rifle Tikhar, vale destacar mais uma vez sua enorme versatilidade, pois é a única para a qual podemos criar munição à qualquer momento durante o gameplay, em qualquer lugar, à partir da mochila do personagem principal (desde que tenhamos, obviamente, os elementos necessários para tanto). E não se esqueça: ainda é necessário carregar a lanterna, de tempos e tempos, através do gerador portátil (ou então utilizar o isqueiro com fins de iluminação).

Em Metro Exodus, pela primeira vez na série, podemos pilotar um veículo na superfície. E não estou nem falando a respeito da dresina (railcar) que utilizamos em diversos momentos sobre trilhos: estou falando a respeito de uma velha e carcomida Kombi, mesmo, um veículo enferrujado, com várias improvisações, assim como o são improvisadas todas as armas do jogo, de maneira bastante especial.

Metro Exodus

Com tal veículo, podemos dirigir à vontade pelo deserto do Cáspio, e também quando chegamos ao nosso destino final, em Novosibirsk. É um veículo bastante limitado e lento, mas confesso que foi um grande prazer com ele lidar: a sensação de liberdade proporcionada pelo jogo nestes momentos, principalmente após estarmos tão acostumados com Metro 2033 e Metro: Last Light, é imensa.

Podemos até mesmo fazer leves desvios, no deserto, indo em direção a objetivos secundários à bordo do veículo terrestre. Isto sem falar nos barcos que controlamos em diversos momentos, desde os pântanos no Volga até os momentos finais do game.

Graficamente falando, Metro Exodus é um show à parte. Lindíssimo. O título da 4A Games apresenta o jogador a cenários e ambientes belíssimos, além de contar com uma ótima direção de arte. No PC, onde joguei, temos vários elementos muitíssimo bem vindos, como por exemplo efeitos de pós-processamento, sem falar que ele faz uso da tecnologia Ray Tracing, da Nvidia, em suas placas pertencentes à nova série 20. O jogo é um dos mais lindos da atualidade, sem sombra de dúvidas.

No geral, o que vemos são belíssimos visuais. Texturas muito bem feitas, iluminação e partículas de primeira. É possível observar flocos de neve pouco a pouco grudando na nossa máscara, quando a estamos utilizando (sem falar na chuva), momentos em que temos então de limpá-la com a mão.

A areia no deserto, a poeira que recobre velhos e esquecidos esconderijos, tudo isto deixa uma impressão bem forte em nossa mente. E que falar, então, dos vermes gosmentos da Cidade Morta (Novosibirsk), que também grudam no visor e podem ser removidos da mesma forma?

A neve caindo sobre os trilhos também é digna de nota, conforme a Aurora avança pouco antes de chegar a Novosibirsk.  A vegetação, durante a primavera, é maravilhosa, verdejante ao extremo, tudo isto ao mesmo tempo em que nos deparamos com uma água cujo visual é de cair o queixo, com os devidos efeitos de ondas conforme nela nos movimentamos. As árvores são de um esplendor indescritível, bem como a grama, e a névoa que recobre tudo ao nosso redor tão logo chegamos a um vale aconchegante, a princípio, é fantástica.

A trilha sonora de Metro Exodus também é espetacular, e eu diria que o pessoal da 4A Games conseguiu criar um “monstro sonoro” adequado a cada um dos momentos pelos quais passamos. Temos toques eletrônicos, temos muita orquestração, temos percussão reforçada em momentos de combate intenso, e temos também guitarras em momentos de grande tensão.

A trilha sonora, aqui, não se restringe a um único gênero ou a um único instrumento: ela é variada, rica, linda, tocante em diversos momentos, capaz, realmente, de nos emocionar enquanto prestamos atenção à bela narrativa e ao espetáculo visual que temos diante de nós.

Metro Exodus é um shooter com bases extremamente sólidas. Um espetáculo audiovisual muitíssimo bem construido, digno de fazer parte de sua coleção. O shooter da 4A Games impõe respeito, e apresenta uma narrativa sólida e tocante, personagens carismáticos e ação furtiva (ou não) em doses muito bem calculadas, além de fortíssimas doses de horror, tudo isto “empacotado” em um espetacular mundo pós-apocalíptico muitíssimo bem construído.

Ficha técnica

Título: Metro Exodus

Gênero: pós-apocalíptico, FPS, ação, shooter, survival horror

Desenvolvedora: 4A Games

Publisher: Deep Silver

Data de lançamento: 15/02/2019

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

Pin It on Pinterest