Sou constantemente atraído por histórias de terror. Por jogos de terror. Por livros de terror. Adoro a adrenalina, os sustos, o medo provocado por tais obras, a sensação de que há algo atrás de mim, à espreita, pronto para cair sobre mim com garras sobrenaturais e me estraçalhar. Ou para fazer com que meu coração congele dentro do peito.

Pode parecer estranho, mas consigo extrair prazer de tais elementos, de uma maneira um tanto quanto única. Consigo me prender aos personagens, às histórias, aos dramas, aos terrores apresentados, à própria imersão, etc. Consigo me importar com aquilo que acontece com tais personagens, e aprecio bastante aguardar ansiosamente por mais acontecimentos aterrorizantes.

Layers of Fear 2

Em Layers of Fear 2, entretanto, experimentei bem pouco de tudo isto. Posso seguramente dizer que senti medo em pouquíssimos momentos, mesmo jogando, várias vezes, à noite e com o uso de um headset.

E isto é um tanto quanto triste: eu estava ansiosíssimo pelo game, principalmente após o teaser trailer divulgado, o qual exibia um caixão pegando fogo (isto sem falar em minha experiência com Layers of Fear 1).

Uma sequência mais leve

Ao contrário do primeiro Layers of Fear, esta sequência é bem mais “light”, bem menos intensa, e conta com um enredo que deixa muitas coisas relegadas ao abstrato. À interpretação do jogador. Àquilo que somos capazes de depreender após certas doses de exploração. E isto, em um jogo de horror, não é nada bom.

Layers of Fear 2

A história toda acontece (salvo algumas exceções resultantes de psicodelia extrema – como no primeiro título da franquia – de grandes “viagens”) dentro de um navio chamado Icarus Transatlantic, um navio para o qual você, no papel do protagonista, foi chamado para desempenhar um papel importante em um filme que será rodado à bordo da embarcação, já em alto mar.

Psicodelia em alto mar

Toda a psicodelia do primeiro título da série está de volta, e talvez em doses mais fortes ainda. Constantemente o ambiente à nossa volta reage de maneira soberba. Nem tudo é o que parece. Portas já visualizadas desaparecem quando voltamos o olhar.

Layers of Fear 2

O ambiente vira de cabeça para baixo, somos transportados para locais e ambientes que transcendem o “simples” navio: cavernas, florestas, vielas nas quais podemos observar prédios sinistros, etc.

No entanto, o jogo carece de um fio condutor. Semelhantemente ao primeiro, grande parte da história é transmitida ao jogador através de trechos lidos em bilhetes e anotações. Mas aqui temos também a narração fantástica de Tony Todd, ator bastante conhecido por “O Corvo” e “Candyman”, o qual, com sua voz sepulcral, consegue transmitir grande agonia e desassossego ao jogador.

Layers of Fear 2

Mas Layers of Fear 2, infelizmente, cai no velho esquema do excesso de Jump Scares, e faz com que o jogador meio que consiga até mesmo antecipar quando algum deles vai ocorrer. Além disso, a trama, aparentemente bastante promissora, acaba não sendo muito bem explicada e explorada (é como eu disse acima: é tudo bastante abstrato).

Layers of Fear 2

Felizmente, existem legendas em português do Brasil, o que torna a compreensão do pouco que é explicado mais fácil por quem não compreende inglês.

Terror em pequenas doses

O jogo conta com espécies de “histórias paralelas” que agregam bastante à história no geral. Em Layers of Fear 2, existem duas vozes, uma feminina e outra masculina, pertencentes a dois garotinhos. Uma menina, chamada Lily, e um menino, chamado James. Os dois têm algo a ver com o grande navio no qual o protagonista se encontra, e diálogos entre eles são constantemente ouvidos, seja enquanto manipulamos objetos relacionados, seja aleatoriamente, durante o gameplay.

Layers of Fear 2

Em determinados momentos, para nossa alegria, obtemos até mesmo a visão aterradora de James, sobre armários, e temos inclusive a sensação de que ele saltará sobre nós ou de que ele executará alguma ação aterradora: mas não se engane – isto não acontece.

Layers of Fear 2

O filme no qual teríamos de participar, além disso, parece ir de mal a pior, e os outros atores são manequins assustadores, muitas vezes visualizados em posições ameaçadoras, posições estas eventualmente modificadas tão logo volvamos nosso olhar para outro canto: ao olharmos para eles novamente, eles já se movimentaram, como que por mágica.

Potenciais desperdiçados

A Bloober Team desperdiçou um enorme potencial em Layers of Fear 2, deixando de investir em um enredo que tinha tudo para ser instigante e amedrontador e deixando grande parte da interpretação do que acontece à mercê do jogador. À mercê de interpretações (que podem ser dúbias, obviamente), sem focar diretamente naquilo que realmente interessa: uma pura e verdadeira história de horror.

Layers of Fear 2

É verdadeiramente decepcionante, após ter jogado o primeiro título da série, perceber que Layers of Fear 2 não entrega tudo aquilo que esperávamos. Que ele dificilmente provoca medo ou desassossego, sem falar que não sabemos muito a respeito de quem é verdadeiramente o protagonista, ao contrário de LoF1, onde sabíamos da loucura do protagonista, de sua arte maluca, de seu alcoolismo, etc.

Parece que o personagem principal, aqui (ele também é o protagonista no filme que está sendo rodado), também foi meio que deixado de lado. É desalentador perceber que um jogo tão promissor, a princípio, tão aguardado (pelo menos por mim), se perdeu em meio a um emaranhado de ideias mal executadas.

Layers of Fear 2

Veja bem: existem momentos assustadores, além da psicodelia que vimos no primeiro jogo. Os ambientes se transformam. Drasticamente, muitas vezes. Por vezes, tudo é revestido de um belo tom sépia, e por vezes (grande parte do game) temos um lindo filtro branco e preto em tela, o qual acaba por deixar a experiência mais surreal e assustadora.

Em determinados momentos, tudo volta ao normal, e observamos os corredores do navio normalmente, “como eles devem ser”. Em outros momentos, tudo se distorce, como se estivéssemos dentro de um quadro louco de Remedios Varo, e em outros as corres se tornam berrantes ao extremo, psicodélicas ao extremo, como se o protagonista estivesse bem no meio de uma viagem provocada, quem sabe, pelo uso de LSD.

Layers of Fear 2

O monstro/fantasma que nos persegue

A trilha sonora, bem como os efeitos de áudio, são fenomenais, e se você jogar com fones de ouvido, conseguirá obter uma experiência melhor ainda, principalmente devido ao áudio binaural.

Lily e James, apesar da aparente inocência, conseguem dar nos nervos, e o assustador narrador, que parece nunca estar contente com nosso trabalho enquanto atores, também é capaz de provocar calafrios.

Vez ou outra, objetos caem das estantes, ratos atravessam nosso caminho, o cenário é alterado drasticamente conforme nos mexemos (coisas que não estavam lá aparecem “do nada”), e manequins surgem quando nos viramos, causando enorme susto.

Portas e linearidade

Existem várias portas que devem ser abertas, também (aguarde por portas, muitas portas) e o jogo é extremamente linear: somos meio que conduzidos pelas mãos, e caminhos são formados através de portas fechadas, portas abertas, objetos impedindo nossa passagem e pouquíssimas e aparentes liberdades que acabam levando sempre ao mesmo lugar.

Tal linearidade não seria um problema em Layers of Fear 2 (assim como não foi no primeiro jogo da franquia), se tudo tivesse sido diferente. Se houvesse um enredo explicado mais claramente tudo o que acontece ao nosso redor, se houvessem objetivos definidos com mais clareza.

Layers of Fear 2

Encarnamos um ator que deve representar o papel principal em um filme um tanto quanto estranho, cujo diretor (o narrador), parece até mesmo não estar lá muito contente com nosso trabalho (deixando isto bem claro em diversos momentos).

Em diversos momentos, aliás, recolhemos rolos de filmes que devem ser visualizados; tais filmes, por falar nisso, também servem de força motriz para momentos estranhos ao extremo, abrindo “brechas” na tela para que adentremos locais e realidades ainda mais esquisitos.

Problemas, problemas, problemas

Uma das coisas mais chatas em Layers of Fear 2, entretanto, são as perseguições que sofremos com alguma frequência por parte de um enorme monstro, ou fantasma, branco. Somos incapazes de enfrentá-lo, é claro, e o que nos resta, então, é correr.

Correr como loucos, muitas vezes às cegas e entrando em becos sem saída que representam nossa “morte”. Bem, não há morte no jogo: tudo o que acontece é renascermos no último checkpoint (e eles são extremamente frequentes) e continuar, aprendendo então com nossos próprios erros.

Isto sem falar que tais perseguições acabam removendo todo o clima de horror do game, da maneira como são executadas. É algo diferente de um Amnesia, por exemplo: trata-se de uma espécie de cena de ação, sem que tenhamos sequer a possibilidade de nos escondermos, com toda a aflição e urgência geralmente requeridas em tais jogos/estilos. Mais um ponto negativo.

Layers of Fear 2

Outro grande problema no jogo é a necessidade de revisitar diversos lugares. Várias e várias vezes, e até mesmo meio que sem sentido. Tudo isto para coletar novos itens necessários ao progresso da história. Torço para que um terceiro (e hipotético) jogo da série não nos obrigue a tal, pois trata-se de algo muito chato e que denota também a pouca atenção dada ao design dos níveis por parte da Bloober Team.

Finalizando

Vale ressaltar que o jogo conta com puzzles, como no primeiro da série. Estes, entretanto, são bem leves, bem light: não se preocupe. Você conseguirá por eles passar sem maiores problemas. Isto não quer dizer, também, que eles ofendem a inteligência dos jogadores. Fique tranquilo quanto a isto.

Os gráficos do título, é importante destacar, são muito bonitos, tanto durante a “normalidade” quanto durante os momentos psicodélicos ou em “outras dimensões”. A Bloober Team realmente foi bastante competente, aqui, criando inclusive ambientes verdadeiramente tétricos à bordo de um transatlântico.

Layers of Fear 2

Sendo um jogo cujo objetivo é dar origem a um filme, obviamente que não poderiam faltar referências a filmes famosos e icônicos. Ao jogá-lo, você certamente as encontrará, como por exemplo o pequeno minigame que representa uma homenagem a “Viagem à Lua”. Tudo isto conta como ponto positivo para Layers of Fear 2, obviamente, e não podemos nos esquecer de tais detalhes, com certeza.

Mas de qualquer forma, o jogo foi, pelo menos para mim, uma grande decepção. E o final do título, então? Bem, jogue para ver, mas ele é totalmente inesperado, brusco, adicionando mais elementos abstratos a uma trama já cheia de elementos inexplicados e inexplicáveis.

Ficha técnica

Título: Layers of Fear 2

Gênero: terror, horror, atmosférico

Desenvolvedora: Bloober Team

Publisher: Gun Media

Data de lançamento: 28 de Maio de 2019

Plataformas: PC, Xbox One, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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