FRACTER é um jogo bastante interessante. Uma mistura entre puzzles e aventura. Puzzles, aliás, diga-se de passagem, bastante desafiadores. O jogo, desenvolvido pelo estúdio independente canadense 4L Games, foi lançado para dispositivos iOS e Android em 2018, e em 2019 finalmente desembarcou no PC, através do Steam.

Contando com sete níveis, FRACTER é uma experiência no mínimo inusitada. No papel de uma garota sem nome que logo no início do jogo vê seu próprio eu, digamos, ser despedaçado em diversas partes tão logo se olha em um estranho espelho, o jogador deve atravessar tais níveis resolvendo quebra-cabeças intrincados e que sempre envolvem a luz e as sombras.

FRACTER

Temos aqui, mais uma vez, uma história sem palavras, da mesma forma que GRIS e FAR: Lone Sails. FRACTER, aliás, conta com gráficos totalmente monocromáticos e bastante charmosos, sendo que o responsável por este detalhe é o diretor criativo, Sanatan Suryavanshi.

FRACTER

No jogo, a garota sem nome deve partir em uma jornada em busca de suas “partes boas”, ou luminosas, ao mesmo tempo em que resolve diversos puzzles e lida com suas “partes más”, representadas por figuras semelhantes a ela porém completamente recobertas por uma “capa de escuridão”.

O jogo conta com uma trilha sonora sensacional, onde temos em alguns momentos uma sonoridade totalmente ambiental, e em outros a presença de cordas. Além disso, vale ressaltar que cada quebra-cabeças em FRACTER envolve a manipulação de elementos e espelhos capazes de conduzir e/ou refletir a luz.

FRACTER

Constantemente, a garota solitária deve movimentar objetos, acionar fontes de luz, movimentar espelhos de maneira tal a redirecionar a luz para pontos de interesse (os quais funcionam também como “portas de saída” dos níveis/fases), e também fugir das “garotas da escuridão”, saídas do estranho espelho logo no início do gameplay.

FRACTER

É importante ressaltar que FRACTER permite uma abordagem mais furtiva/stealth no momento de lidar com tais “meninas escuras”: podemos andar “de fininho”, digamos, e assim passar próximo a elas (mantendo sempre uma distância segura, é claro). Obviamente, se corrermos, elas detectarão nossos passos, nossa presença, e correrão atrás de nós, assumindo nestes momentos formas um tanto quanto horrendas.

O jogo também conta com algumas doses de poesia, entre uma fase e outra. Tal como este pequeno trecho, por exemplo:

A luz e a escuridão em cada coração lutam para se libertar. Até que uma vença, essas gêmeas em guerra sempre estarão em desacordo“.

FRACTER

A 4L Games, além disso, conseguiu tornar interessante algo que, de muitas maneiras, poderia ter sido enfadonho. O jogo conta com variados e belos efeitos de iluminação, além de uma “narrativa sem palavras” que fornece sutilmente ao jogador diversas pistas a respeito do que está acontecendo. Isto sem falar nos trechos poéticos, é claro (os quais ficam melhor em inglês – como o acima citado, por exemplo).

FRACTER

Em perspectiva isométrica, tudo fica melhor ainda, e o jogador fará sua jornada através de um mundo sombrio e repleto de horrores, grande parte deles representados por algo que, talvez, tenha sido libertado da própria garota sem rosto e sem nome.

A escuridão se faz sempre presente, e creio que isto seja algo até mesmo inerente ao desejo do game designer de FRACTER: quando nos deparamos com nossas “partes boas”, ou seja, com os vultos brancos e luminosos, há uma certa recompensa. Nos sentimos bem, quando isto acontece, e tais momentos ajudam um pouco a quebrar a extrema escuridão e perturbação geralmente vivenciadas enquanto jogamos.

FRACTER

Cada puzzle em FRACTER é verdadeiramente bem desenvolvido. Temos puzzles verdadeiramente inteligentes, capazes de dar um nó, muitas vezes, na cabeça de muita gente. Existem também labirintos, no game, e enquanto tentamos ultrapassá-los, temos de evitar à todo custo topar com uma de nossas “irmãs da escuridão”.

É possível, nestes momentos, tanto utilizar uma abordagem mais stealth, quanto é possível correr, mesmo, até que as criaturas nefastas percam o interesse por nós. Porém, existem momentos em que podemos criar verdadeiras barreiras de luz, manipulando espelhos e outros elementos nos ambientes, de maneira tal a impedir a movimentação das perigosas criaturas. É possível também atraí-las para tais barreiras luminosas, o que faz com que elas se desintegrem automaticamente, vale lembrar.

FRACTER, dado seu estilo, dado tudo o que nele observamos, e dados os inúmeros trechos poéticos entre uma fase e outra, talvez seja uma metáfora. Uma metáfora que tem a ver com tudo aquilo de bom/belo e ruim/feio que porventura exista dentro de cada um de nós.

FRACTER

Os desenvolvedores souberam dosar bem a quantidade de puzzles, aventura e ação, e o jogo transcorre de forma bastante fluida durante grande parte do tempo, até que, é claro, você “emperre” em algum de seus difíceis puzzles.

Bem e Mal, Luz e Escuridão: tudo isto está interligado no jogo da desenvolvedora canadense, o qual não cansa de convidar o jogador a fazer reflexões as mais diversas e também a comparar o quão estamos mais ou menos ligados a cada um destes conceitos/ideias.

FRACTER

Há um problema, entretanto, em FRACTER. Os controles são um pouco confusos, a princípio. É possível jogar tanto com o teclado quanto com um controle. No meu caso, utilizei o controle do Xbox 360 (no PC).

Acontece que o analógico esquerdo movimenta a garota, e o direito movimenta uma espécie de cursor, cursor este responsável por interagir com pilastras, espelhos, fontes de luz, botões, switches e demais elementos pertinentes aos puzzles.

FRACTER

Bem, o tal cursor se movimenta de forma bastante lenta (lembrando também a movimentação do cursor do mouse em tela), além de errática, o que acaba prejudicando um pouco nossa vida quando estamos lidando com os quebra-cabeças.

Obviamente, com o tempo você se acostuma com este problema, mas creio que os desenvolvedores deveriam dar uma atenção especial a tal situação encontrada em FRACTER (talvez, aliás, isto seja algo oriundo do fato do jogo ter sido originalmente desenvolvido para dispositivos móveis).

FRACTER

De qualquer forma, FRACTER é um excelente jogo que mescla aventuras e puzzles, em um mundo totalmente monocromático com “pitadas” de luz aqui e ali. A interpretação real da história fica por conta do jogador, e se este jogar com atenção, perceberá diversas representações de algumas situações, elementos e coisas de nosso tal “mundo real”.

Pode adquirir sem medo. FRACTER custa apenas R$ 14,49 no Steam.

Ficha técnica

Título: FRACTER

Gênero: aventura, puzzle

Desenvolvedora: 4L Games

Publisher: 4L Games

Data de lançamento: 05 de Setembro de 2019

Plataformas: PC, iOS, Android

Versão analisada: PC

Pin It on Pinterest