Fade to Silence é um jogo que despertou minha atenção desde seu lançamento no Steam Early Access, em Dezembro de 2017. E hoje, 30 de Abril de 2019, o jogo finalmente chega às nossas mãos. Ele está disponível para PC, via Steam, Xbox One e PlayStation 4.

Trata-se de um “survival game”. De um jogo com foco máximo na sobrevivência, após um grande cataclismo que devastou o mundo inteiro. Tudo o que restou do mundo, no jogo criado pelo estúdio alemão Black Forest Games, foi desesperança, medo, terror mesmo. Isto além de gelo eterno, monstros horríveis e frio, muito frio. Frio de congelar, realmente, nossa alma.

Fade to Silence

Um conto de horror gelado

No jogo, encarnamos Ash, o qual deve cuidar de sua pequena filha, Alice, e também de um grupo de sobreviventes que, pouco a pouco, vai chegando até seu acampamento. Destroços do mundo antigo não faltam, em meio à vastidão gelada, e o Eclipse, uma enorme estrutura em forma de esfera que pode ser vista quase que constantemente, nas alturas, é prova “viva” de que desgraças maiores ainda estão por vir.

O tal Eclipse, aliás, parece ser a fonte de muitos dos problemas enfrentados pelo protagonista e por seu grupo, incluindo sua filha. Por onde quer que a gigantesca esfera suspensa passe, algo de ruim acontece: monstros despertam e destroços despencam, causando grandes estragos. E por aí vai.

Ash deve explorar o mundo congelado ao seu redor e, pouco a pouco, ir conquistando novos espaços para caça, para mineração, para a derrubada de árvores tendo em vista o aquecimento de seu acampamento (e o dele próprio), etc.

Fade to Silence

Ash, além disso, tem de lidar com a construção de seu próprio refúgio, valendo lembrar que, de maneira diferente do que ocorre em outros survivals por aí, aqui em Fade to Silence os sobreviventes, ou seja, aqueles que encontramos perdidos no enorme mundo do jogo (ou que chegam até nosso acampamento), são quem constroem as diversas estruturas em nosso refúgio (ou acampamento).

Nós mesmos, enquanto protagonistas, somos incapazes de construir qualquer coisa (não estou considerando, aqui, o crafting, obviamente).

Fade to Silence

O mapa do jogo é bem grande, e explorá-lo é uma tarefa muito interessante, principalmente quando obtemos acesso aos lobos e à estrutura para criação dos mesmos: à partir daí, podemos utilizar um sled, um trenó na neve, arrastado por tais lobos, o qual é capaz de facilitar bastante nossa vida e nossas explorações.

Vale também lembrar que enquanto dorme, Ash sonha com bastante frequência. Ele sonha com o mundo antes do gelo, antes do apocalipse que cobriu o mundo com seu manto branco e congelante.

Tais sonhos, aliás, mencionam diversos elementos estranhos, pelo menos a princípio, os quais estão certamente relacionados à trama do jogo. E uma instalação em especial é sempre mencionada: trata-se de algo chamado GIPA (sem spoilers, entretanto).

Em Fade to Silence, também nos deparamos com monstros que pertencem a uma espécie de classe chamada “Eldritch”: esta é uma palavra, aliás, que em inglês também serve para designar algo estranho, fantasmagórico, misterioso e/ou sobrenatural. Por aí dá pra ter uma ideia do quão horripilantes são tais criaturas.

Fade to Silence

Tais monstros, incluindo a “inner voice”, ou “voz interior”, são capazes de causar grandes problemas ao protagonista e à sua equipe, principalmente após o início da construção de novas instalações em nosso acampamento. Eles parecem detectar nosso progresso, e atacam pouco tempo após.

Um belo mundo aberto pedindo para ser explorado

O mundo do jogo é vasto, enorme mesmo, e conta com diversas áreas propícias para a extração de recursos, incluindo minérios diversos, madeira e até mesmo carne (mediante a caça de cervos).

Também somos capazes de liberar outposts, ou postos avançados, e aqui me lembrei bastante das franquias Far Cry e Assassin’s Creed. Cada posto avançado inicialmente está corrompido, tomado pela grande escuridão que cobriu o mundo e que ainda se mantém firme inclusive em meio a vários tipos de vegetação.

Nossa tarefa, então, é libertá-lo, destruindo os ninhos de criaturas terríveis que nele existem, matando guardiões monstruosos e limpando-o, então, de toda a sujeira, de toda a corrupção que antes nele grassava.

Fade to Silence

Tão logo concluímos tais tarefas, o posto avançado é nosso, podendo inclusive ser utilizado para viagens rápidas. Além disso, cada novo posto avançado liberado conta com uma quantidade imensa de recursos, a qual pode ser transferida para nosso stash em nosso refúgio quando e conforme bem entendermos.

Isto sem falar na animação que se segue à libertação de cada outpost, a qual também lembra bastante de Assassin’s Creed e Far Cry. Trata-se de algo realmente muito bacana. Bela inspiração.

Explorar o mundo de Face to Silence também nos oferece belíssimos momentos: temos ciclos dia e noite completos, capazes de melhorar ou dificultar nossas ações. Temos também a neve, belamente recriada no jogo e capaz de impedir o nosso avanço, em diversos momentos.

Fade to Silence

Além disso, temos tempestades de neve verdadeiramente terríveis, as quais chegam a impedir nosso avanço, fazendo com que tenhamos de buscar abrigo e aquecimento o mais breve possível, sob pena de congelarmos totalmente.

Um survival interessante

Em Fade to Silence, temos de nos manter alertas tanto em relação ao recrutamento de novos sobreviventes, ou survivors, para nosso acampamento, quanto em relação à quantidade de suprimentos que possuímos.

Tão logo é recrutado, e dependendo de suas características e habilidades, um sobrevivente pode ser utilizado em diversas estruturas (as quais devemos construir mediante o uso de recursos coletados), e assim proporcionar melhorias significativas no que diz respeito à alimentação, a poções diversas (inclusive de cura) e ao crafting no geral, incluindo roupas, armamento e proteções mais fortes.

Crafting é algo essencial em Fade to Silence, além disso: podemos fabricar itens à partir de um menu específico para tanto, mas alguns deles exigem o uso de uma fogueira, a qual pode ser encontrada em acampamentos espalhados pelo mundo, em postos avançados e também em nosso próprio acampamento, ou refúgio.

Fade to Silence

Ash também deve ter cuidado no que diz respeito à sua própria saúde: devemos sempre nos manter bem alimentados, fabricando poções e comida à partir de diversos elementos, e devemos também nos manter aquecidos, o que significa que qualquer expedição em meio aos ermos gelados deve sempre ser bem planejada – jamais devemos sair sem estarmos bem abastecidos.

Nossa “fortaleza”, além disso, pode sofrer o ataque das “forças do mal” à qualquer momento, e é importantíssimo que você a proteja, com paliçadas, com armas diversas (incluindo morteiros de diferentes tipos), com portões, etc.

Fade to Silence

É um fato, entretanto, que podemos sofrer ataques com bastante frequência, e tais ataques são sempre capazes de avançar sobre nossas defesas: isto significa, portanto, que devemos ser capazes de reconstruir estruturas as mais diversas, sempre contando com os recursos necessários para tal (diversos tipos de madeira, aço, minérios diversos, etc). A reconstrução das estruturas está, digamos, no cerne do game.

A inner voice

A inner voice, ou voz interior, assume, em Fade to Silence, um aspecto aterrorizante. Triste, desesperador e assustador é o momento em que tal “criatura” aparece para Ash, como se fosse um verdadeiro fantasma oriundo das mais escuras profundezas. Aliás, ela aparece com bastante frequência, e muitas vezes somos apenas capazes de ouvir sua voz, em nossa mente.

Fade to Silence

Acontece que a inner voice é uma espécie de antagonista, no game. Ela está, de certa forma (ou não?) relacionada ao Eclipse. Ela está, também, relacionada aos eventos que congelaram o mundo inteiro, e não se cansa de dizer a Ash que ele é um mero joguete em suas mãos.

Muitas vezes, ao caçar um simples cervo, fui surpreendido por sua voz, me dizendo que eu iria mirar porém não iria acertar. Em outras ocasiões, tal voz interior me alertava a respeito do quão escassos eram os recursos que eu tinha em mãos, no mundo ao meu redor, e que eu estava acabando com eles muito rapidamente. A degradação dos pontos fornecedores de recursos também é um grande problema, no jogo, problema este para o qual devemos manter olhos bem abertos.

Este é um detalhe bem interessante em Fade to Silence: ao mesmo tempo em que vivemos em um mundo pós-apocalíptico no qual faltam diversos recursos necessários à nossa sobrevivência, somos obrigados a esgotar fontes as mais diversas que contêm tais recursos, tudo para que sejamos capazes de sobreviver.

E disto a inner voice, o tal “ser da escuridão”, jamais se esquece de nos lembrar. Ele nos “alfineta” em diversos momentos, sempre de maneira amedrontadora, sempre nos jogando para baixo. Sempre nos fazendo sentir como meros joguetes em suas mãos.

Fade to Silence

Liberando postos avançados

Aliás, a inner voice sempre parece querer nos deixar para baixo, deprimidos, tristes ao extremo, ao reportar os diversos problemas pelos quais passamos, ao expor os dilemas que temos diante de nós, ao deixar bem claro que nossa vida pode ser bem curta naquele enorme e agora vazio mundo gelado.

Tal “personagem” representa um verdadeiro “companheiro negro”, durante nossa jornada inteira: ele está sempre pronto para nos prejudicar. Ele está sempre pronto para fazer com que desistamos.

Suas falas, sua entonação, sua voz e seu modo de ação sempre representam, de certa forma, mais um obstáculo que temos de enfrentar no título. Ele é abominável, e não se cansa de expor nossas falhas e de deixar claro ao extremo o quão frágil somos frente ao seu querido gelo eterno.

O protagonista também conta com uma “visão especial”, chamada “inner vision”, através da qual podemos observar pontos e objetos de interesse no cenário. Tal recurso/poder, entretanto, parece ser meio que um “presente das trevas”: ao acioná-lo, somos expostos a diversos sons assustadores, e isto sem sombra de dúvidas nos deixa com a pulga atrás da orelha no que diz respeito ao personagem principal, às suas motivações, à sua origem e a seu papel naquele drama todo.

Gelo e gráficos de ponta

Fade to Silence conta com gráficos muito bonitos. Com efeitos de sombras e iluminação extremamente bem feitos. Com texturas de boa qualidade, e com efeitos de partículas verdadeiramente surpreendentes.

Fade to Silence

É verdadeiramente surpreendente quando somos expostos a uma tempestade de neve e observamos os flocos de gelo cobrirem tudo à nossa volta, incluindo trenós, construções, destroços e o próprio chão.

É verdadeiramente surpreendente, também, quando percebemos que o gelo assume proporções assustadoras ao nosso redor: em alguns momentos caminhamos sobre superfícies planas, mas em vários momentos, dependendo do clima, da temperatura (a qual pode chegar a -90º), e da ocorrência ou não de tempestades, caminhamos em meio a um verdadeiro mar de neve, o qual dificulta nosso caminhar e no qual afundamos nossos pés.

É fantástico, aliás, observar os sulcos que deixamos para trás (incluindo os sulcos do trenó puxado por lobos), os quais permanecem visíveis por bastante tempo. É sensacional, também, perceber que o jogo conta com iluminação dinâmica, além de suporte a NVIDIA Ansel, permitindo assim que capturemos  screenshots muito bonitas.

O gelo, em Fade to Silence, além disso, cobriu a tudo e a todos. Não é difícil enxergarmos cadáveres congelados, veículos de outrora e construções enormes pertencentes a um mundo que há muito tempo deixou de existir.

Não é difícil, também, percebermos que somos, ali, naquela realidade, um tanto quanto estranhos. Um tanto quanto forasteiros. Estamos, ali, verdadeiramente deslocados, e nosso único porto seguro é o nosso refúgio.

Fade to Silence

Sonhando com um mundo de outrora

Ash também sonha, vez ou outra. Uma das maneiras de recuperarmos nossa saúde, além de nos aquecermos, é dormir em frente a fogueiras, seja em nosso refúgio, seja em postos avançados, seja em acampamentos espalhados pelo mundo do jogo.

Em tais momentos, então, Ash pode sonhar com o mundo de outrora. Com acontecimentos anteriores, com momentos felizes e também com acontecimentos que estariam, a princípio, ligados com o grande cataclismo que se abateu sobre a Terra.

Tais sonhos são sempre repletos de simbolismo, e eu confesso que capturei uma tonelada de screenshots, em tais momentos, para analisá-los melhor: tudo é bastante misterioso. Os sonhos nada revelam diretamente. Tudo o que temos são pistas, menções, frases entrecortadas, pensamentos, resquícios.

Algumas considerações finais

Fade to Silence poderia ter sido um jogo muito melhor, se diversas de suas “arestas” tivessem sido aparadas. Talvez, quem sabe, se ele tivesse permanecido mais tempo em Early Access.

E perceba que estamos falando a respeito de um título que permaneceu durante cerca de 1 ano e meio em Acesso Antecipado. A versão que analisei, no PC, apresentou inúmeros crashes, mesmo em uma configuração acima da solicitada.

Pude averiguar, inclusive, que existiam algumas incompatibilidades entre o overlay do Nvidia Geforce Experience e o jogo, problemas estes que muito provavelmente devem ser sanados no patch lançado hoje, entretanto.

Além disso, não há maneira alguma de pausarmos as cutscenes, o que pode causar nervosismo a muitos jogadores (eu incluso). O jogo, também, conta com animações faciais bem fracas, e com personagens verdadeiramente inexpressivos, inclusive durante as inúmeras cutscenes. Isto é um tanto quanto lamentável, principalmente se nos ligarmos com o enredo interessante do game.

Fade to Silence

Me deparei, também, com inúmeros objetos e personagens flutuantes, durante o gameplay, além de demoras no carregamento de algumas texturas (principalmente quando iniciamos o jogo à partir de algum posto avançado).

Também fui capaz de me deparar com cervos rápidos ao extremo/deslizantes, os quais disparavam rapidamente pelo cenário, como que movidos à jato (um bug claríssimo, devo dizer): bastava, aliás, utilizar a inner vision de Ash (através da qual ele é capaz de observar objetos de interesse destacados no cenário) para perceber tal problema.

A trilha sonora de Fade to Silence, além disso, apesar de contar com alguns pontos altos e tétricos, fica um tanto quanto repetitiva após algum tempo de gameplay: mas este é um problema, creio eu, bastante comum (e até compreensível) em jogos do tipo survival.

Ocorreram comigo também alguns problemas relacionados a NPCs presos em paredes. NPCs com os quais eu deveria falar, justamente: nestes casos, tudo o que me restou foi reiniciar o jogo e recarregar o último checkpoint.

Em um jogo onde somos obrigados a lidar com NPCs sobreviventes para caçar, para construir, para minerar, para derrubar árvores e para realizar uma série de outras tarefas, é também bastante frustrante termos de conviver com problemas relacionados às nossas ordens: muitas vezes fui obrigado a reiniciar o jogo apenas para ser capaz, novamente, de dar ordens a meus survivors (eles simplesmente deixavam de me obedecer e permaneciam estáticos).

O sistema de combate no jogo também é um tanto quanto problemático: o protagonista é lento ao extremo, e temos, além disso, de lidar com sua estamina. Ash conta com um ataque forte e um fraco, os quais gastam quantidades maiores ou menores de estamina, dependendo da situação.

Fade to Silence

Lutar, em alguns momentos e situações, dependendo do inimigos que temos adiante, pode ser uma tarefa árdua, principalmente devido ao fato de não contarmos com nenhum tipo de bloqueio. Focar nossa mira nos inimigos, além disso, pode ajudar nos ataques, mas nos deixa perigosamente próximos dos mesmos, o que pode resultar em verdadeiras catástrofes oriundas de possíveis contra-ataques.

Mas ainda assim gostei do jogo. Fade to Silence é um ótimo representante do gênero survival: seu mundo aberto é convidativo, apesar de gelado. Sua trama é interessantíssima, e as mecânicas de crafting são extremamente simples e amigáveis: difícil é obtermos os elementos necessários para tal, e tal desafio pode muito bem ser um must have para muitos jogadores.

Fade to Silence pode ser frustrante em alguns momentos, mas na maior parte do tempo ele representa um survival com bases sólidas, e o melhor de tudo: ambientado em um mundo pós-apocalíptico extremamente convidativo e belo, realmente capaz de fazer com que “percamos” horas e horas explorando-o.

Ficha técnica

Título: Fade to Silence

Gênero: sobrevivência, RPG, mundo aberto

Desenvolvedora: Black Forest Games

Publisher: THQ Nordic

Data de lançamento: 30 de Abril de 2019

Plataformas: PC, Xbox One, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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