É desnecessário dizer que o hype pode causar problemas. Mas tudo bem. Acontece que acabamos ficando tão ansiosos, no aguardo por determinados títulos, que acabamos ficando ainda mais decepcionados quando tal título finalmente é lançado sem corresponder às nossas expectativas. É isto o que aconteceu comigo e Everreach: Project Eden.

O RPG, desenvolvido pela Elder Games, pequena empresa composta por uma equipe com apenas 5 pessoas, busca inspirações na franquia Mass Effect. E este “pequeno” detalhe, por si só, já foi suficiente para fazer com que eu ficasse bastante interessado no projeto.

No desenvolvimento de Everreach: Project Eden (o jogo levou 3 anos para ser finalizado), vale ressaltar que uma série de freelancers foram contratados. O título também conta com a participação de Michelle Clough, que trabalhou como escritora na trilogia Mass Effect, do dublador D.C. Douglas (“Legion”, em Mass Effect 2) e de Mai-Anh Tran, artista que trabalhou em vários projetos cinematográficos, tais como, por exemplo, “Star Trek: Beyond” e “Warcraft”.

Everreach: Project Eden

Um time de peso, não? Pelo que tudo indicava, teríamos não um game AAA, mas pelo menos um indie game de peso. Algo capaz de proporcionar excelentes momentos a todos aqueles que se maravilharam com a trilogia Mass Effect, também.

Infelizmente, porém, as coisas não saíram conforme o planejado, ou talvez a ambição em criar algo grandioso tenha sido maior do que a capacidade do pequeno estúdio. Mas vamos por partes.

A história de Everreach: Project Eden

No jogo, encarnamos Nora Harwood, tenente e líder de um grupo de segurança de uma megacorporação chamada EverReach Industries.

Nora é enviada ao planeta Eden, o qual está em processo de colonização, justamente para lidar com certos problemas que estão impedindo tal processo.

Vale lembrar que a Terra, em Everreach: Project Eden, chegou ao seu limite em diversos aspectos, incluindo superpopulação, poluição, escassez de recursos naturais, etc.

Everreach: Project Eden

Chegando em Eden, Nora e seu grupo são atacados. Suas naves acabam caindo no planeta, e é tarefa do jogador, então, encontrar o caminho até algum posto avançado. Eden foi o primeiro planeta similar à terra encontrado pela EverReach Industries, e trata-se, na verdade, de um verdadeiro paraíso, algo bem de acordo com o nome do jogo, diga-se de passagem.

Muito rapidamente, porém, Nora descobre que um grupo de humanos criou uma espécie de motim, e se autointitulou “Eclipse”. Tal grupo passou a atacar postos avançados da organização EverReach, impedindo assim o avanço do projeto de colonização de Eden.

É importante também destacar que Eden conta com resquícios de uma antiga civilização. Uma civilização alienígena que habitou o planeta muito tempo atrás, e que nele deixou sua marca, na forma de vários elementos interessantíssimos, incluindo gigantescas estruturas em forma de arcos. Tais objetos são também objeto de interesse do grupo de Nora, vale destacar.

Tão logo alcança o primeiro posto avançado, chamado Nova, Nora conhece a Tenente Abigail Ross, a qual a coloca, então, a par da situação em geral e lhe fornece algumas missões.

Everreach: Project Eden

Estas são as premissas para um jogo que conta com bastante potencial, mas que infelizmente o desperdiçou de maneiras extremamente desagradáveis, como você perceberá ao longo deste review.

Jogando Everreach: Project Eden

Posso seguramente dizer que jogar Everreach: Project Eden é algo bastante difícil. Não que o jogo seja difícil, não se trata disso. Aliás, é possível escolher alguns níveis de dificuldade ao iniciar o game: fica aqui a dica, caso você resolva insistir.

Everreach: Project Eden

O jogo custa apenas R$ 47,49 (provisoriamente com desconto, no Steam, saindo por R$ 37,99), mas mesmo assim eu não o recomendo a ninguém. Pelo menos, não no estado em que ele se encontra atualmente.

Quando eu disse que Everreach: Project Eden era um jogo difícil, eu estava me referindo aos seus problemas e às consequentes dificuldades transferidas para o gameplay. A falhas de design. A decisões erradas no momento de criar determinadas mecânicas.

O título da Elder Games é um RPG, e como tal, conta com uma árvore com mais de 80 upgrades que podem ser desbloqueados pelo jogador, e tal operação se dá através do gasto de recursos que coletamos enquanto jogamos, como por exemplo nitrogênio, sucatas diversas e células de energia.

Além disso, a protagonista, Nora, pode evoluir, e podemos distribuir pontos de experiência em três áreas diferentes, as quais são “força”, “agilidade” e “intelecto”.

Everreach: Project Eden

Jogar, entretanto, é um verdadeiro tormento, posso seguramente dizer. A começar pelo fato de que a orientação durante o jogo é extremamente problemática. Para visualizar o mapa, o qual é exibido apenas parcialmente, temos de pressionar a tecla “ESC” constantemente enquanto jogamos.

O minimapa exibido no canto superior direito não mostra muita coisa, e para piorar ainda mais as coisas, os indicadores de objetivos das missões somem e reaparecem com enorme frequência, fazendo com que o jogador seja deixado “largado”, nos cenários, sem saber bem ao certo para onde ir.

Por várias e várias vezes tive de recarregar o último checkpoint para que o tal indicador reaparecesse, então, em tela. E isto é bastante chato, além de contraproducente, por motivos óbvios.

Everreach: Project Eden

Na verdade, trata-se de algo horrível. Algo que, creio eu, deve estar na pauta dos desenvolvedores para ser corrigido no primeiro patch para Everreach.

Foi triste, para mim, constatar que Everreach: Project Eden, um jogo com claras inspirações na trilogia Mass Effect, é um projeto extremamente falho. Foi bastante triste constatar que o título da Elder Games era algo claramente bastante ambicioso, mas que falhou totalmente em sua execução.

Everreach: Project Eden

Você caminha através de desertos, pântanos, florestas e outros tipos de biomas, todos eles muito bonitos (leia mais abaixo a respeito dos gráficos), utilizando suas armas e suas habilidades adquiridas, enfrentando soldados, robôs e drones, e no entanto fica com aquela sensação de: “podia ter sido muito melhor”.

Gráficos e trilha sonora

Os gráficos do jogo são geralmente muito bonitos. Temos belos efeitos de iluminação (às vezes um tanto quanto exagerados, diga-se de passagem), e o conjunto audiovisual como um todo chega a impressionar, em diversos momentos. Ponto positivo para a Elder Games, aqui.

Everreach: Project Eden

A trilha sonora também é muito interessante. Bonita, mesmo, bem apropriada para o título, com músicas com um quê de ficção científica bastante apropriadas. Elas apenas se repetem em demasia, devo dizer.

No que tange aos gráficos do jogo, devo dizer que não há muito a reclamar. Eles são competentes, temos belas paisagens e cenários, além de interiores de instalações e postos avançados que lembram um pouco a nossa querida SSV Normandy.

Lançamento apressado

A impressão que temos é justamente esta. Um lançamento apressado. Algo inacabado. Talvez, mais alguns meses (ou um ano, quem sabe) em desenvolvimento fossem capazes de proporcionar melhorias imensas no jogo.

Everreach: Project Eden

Em Everreach: Project Eden temos de lidar, por exemplo, com um sistema de checkpoints extremamente defasado e “nefasto”. Caso você tenha de “limpar” determinada área, eliminando todos os inimigos aí presentes, e morra no confronto com o último deles, terá de refazer todo o processo, desde quando chegou a tal área na companhia de seu fiel seguidor e ajudante 73-Q, um robô com um senso de humor ora estranho ora bastante hilário.

Everreach: Project Eden

O game tem diversos e sérios problemas, os quais tornam sua compra um processo extremamente não recomendável. A menos que você goste de passar raiva.

Sincronismo labial, por exemplo, é algo praticamente inexistente, sem contar que a animação facial dos modelos é bem ruim. Falha, mesmo. Isto sem falar em seus corpos propriamente ditos, os quais possuem uma movimentação que, por diversas vezes, é até mesmo hilariante. Totalmente não convencional. Algo bastante estranho, até. Não natural, digamos.

Everreach: Project Eden também conta com sérios problemas de desempenho. Quedas de frames ocorrem com frequência enorme (e minha máquina possui configuração acima da recomendada), sem falar em vários lags durante o gameplay, os quais atrapalham bastante.

Nora, a protagonista, aliás, é incapaz de pular, e além dos diversos muros invisíveis com os quais topamos vez ou outra, existe loot acessível somente se a protagonista fosse capaz de saltar sobre elementos existentes no cenário (mais uma vez fica a impressão de algo lançado de forma apressada).

Everreach: Project Eden

Mirar, no jogo, também é um processo bastante complicado (sem recoil, mas a mira desce estranhamente, com bastante frequência), sem contar com o fato de que você é capaz de observar o efeito dos projéteis atingindo os alvos e elementos do cenário de maneira um tanto quanto errática.

Você observa perfeitamente as labaredas, por exemplo, no cano da arma, mas não observa os efeitos dos tiros em paredes ou nos corpos dos inimigos (eles não sangram, por exemplo), salvo raras exceções.

Problemas e mais problemas

Continuando com a nossa “lista de problemas” em Everreach: Project Eden, é triste constatar, sou obrigado a dizer mais uma vez, que um jogo com tanto potencial tenha se perdido. Espero, aliás, que os desenvolvedores consertem as coisas – um “Mass Effect não AAA” seria algo muitíssimo bem vindo.

Existem também inimigos que são verdadeiras esponjas de balas, ao mesmo tempo em que existem inimigos que levam tiros diretamente na cabeça e o efeito causado é o mesmo resultante de tiros em outras partes do corpo.

Sem um sistema de cobertura (o máximo que Nora é capaz de fazer é se agachar atrás de elementos no cenário, como rochas, por exemplo), determinados combates ficam extremamente complicados.

Porém, devo ressaltar que a inteligência artificial dos inimigos é praticamente nula. Você pode atirar nos mesmos, muitas vezes, pelas costas, e continuar este processo até eliminá-los: eles não se voltarão e muito menos revidarão. O mesmo acontece, com alguma frequência, com inimigos voltados em sua direção. É triste.

A animação da protagonista (aliás, já falei sobre a animação dos personagens – veja acima), aliás, é bastante simplória, sem contar com o fato de que ao correr, ela parece estar deslizando pelo chão. Pura e simplesmente, infelizmente.

Everreach: Project Eden

Também existem missões secundárias que acabam interferindo no progresso da missão primária. Em determinado momento, eu tinha que ativar uma série de torres de transmissão (era uma sidequest), e aí, o indicador direcional da missão principal simplesmente sumiu da tela (lembre-se: praticamente não existe um mapa, no jogo).

Este tipo de decisão de design é bastante problemático. Ou melhor, este tipo de falha é irritante, e faz com que o jogador tenha, muitas vezes, que encerrar o jogo ou recarregar o último checkpoint, perdendo, muitas vezes, tempo precioso. No meu caso, em uma segunda situação semelhante, o tal indicador simplesmente reapareceu, em determinado momento, “do nada”.

A “moto voadora”, por sua vez, a hoverbike, um dos elementos pelos quais eu estava mais ansioso, é outra grande decepção. Combates à bordo da mesma são enfadonhos, pois você possui apenas um armamento e mal vê quando ele é disparado.

Além disso, pilotá-la é um verdadeiro exercício de perseverança: a câmera, neste momento, é fixa (o mouse não funciona), e você só pode utilizar as teclas W, A, S, D (joguei com teclado e mouse).

Everreach: Project Eden

A moto voadora em Everreach é algo bastante frustrante. Sua pilotagem é “dura”. E se você topar com algum obstáculo, por exemplo, a vida da protagonista vai se esvaindo: ou seja, ao invés de danificar apenas o veículo, a protagonista pode morrer devido a danos na moto: neste caso, lá vamos nós outra vez recarregar o último ponto salvo.

Isto sem falar em cenários repetitivos, em objetivos impossíveis de serem concluídos, mesmo você tendo cumprido com todos os pré-requisitos (lá vamos nós outra vez recarregar o último checkpoint), etc.

Finalizando

Everreach: Project Eden poderia ter sido um grande jogo. Eu ainda tenho esperança. A Elder Games pode voltar a nele trabalhar e, então, disponibilizar um produto de qualidade.

Há uma boa história, ali. Existem personagens interessantes. Existem ótimas premissas. Infelizmente, porém, os problemas superam bastante as qualidades. Estamos, aqui, bem distantes do paraíso.

Ficha técnica

Título: Everreach: Project Eden

Gênero: RPG, Ação, Ficção Científica

Desenvolvedora: Elder Games

Publisher: Headup

Data de lançamento: 04 de Dezembro de 2019

Plataformas: PC, Xbox One

Versão analisada: PC

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