Estamos tão acostumados com a tecnologia em nosso dia a dia, que pouca coisa nos surpreende neste quesito. Robôs, drones, inteligência artificial, etc: tudo isto, e muitas coisas mais, faz até com que cheguemos a pensar que o ser humano se torna em algumas situações até que meio descartável. É justamente este um dos pontos centrais de Detroit: Become Human, o mais recente jogo da Quantic Dream, lançado em 2018 para PS4 e em Dezembro de 2019 para PC.

Detroit: Become Human

Estamos na cidade de Detroit, no ano de 2038. Em Detroit: Become Human, há uma megacorporação por traz de tudo o que acontece no jogo. Trata-se da CyberLife, empresa multimilionária fundada por Elijah Kamski, cientista que criou androides avançadíssimos que são, na verdade, o objeto central do jogo.

Para este título, David Cage (também responsável por Beyond: Two Souls, dentre outros) escreveu um roteiro soberbo, no qual somos apresentados a diversas opções de escolha durante inúmeros diálogos, opções estas que muitas vezes envolvem questões morais delicadíssimas.

Detroit: Become Human

Tais diálogos, diga-se de passagem, são capazes de alterar o rumo da trama de formas bastante drásticas. Aliás, elas são capazes de alterar até mesmo a personalidade e o modo de agir dos 3 personagens jogáveis/protagonistas: Connor, Kara e Markus.

Detroit: Become Human

Kara é uma androide, digamos, dos mais simples. Trata-se de um modelo AX400, voltado às tarefas domésticas e ao cuidado de crianças pequenas. Já Connor é um modelo RK800. Um modelo recém lançado e especialista no auxílio às forças da lei.

Markus talvez seja o androide mais interessante dos três, com sua personalidade forte e extremo apreço por aqueles de seu povo. Markus é um androide modelo RK200, que inicialmente trabalha como uma espécie de cuidador de um famoso e doente artista, Carl Manfred.

A trama

A trama de Detroit: Become Human é bastante complexa, intrincada mesmo. Em algumas situações, dependendo de nossas escolhas e decisões, as ações dos 3 protagonistas podem influenciar umas às outras, e até mesmo talvez devido a isto, ao fim de cada capítulo (são 32 no total), podemos visualizar diagramas completos e complexos, detalhando tudo aquilo pelo que passamos.

Detroit: Become Human

Tais diagramas mostram claramente todos os desdobramentos em cada capítulo, possibilitando que visualizemos caminhos bloqueados e desbloqueados, com base em nossas decisões e ações, momentos decisivos, escolhas, diálogos, buscas, sucessos, fracassos, e até mesmo eventuais mortes de personagens (sim, isto é possível).

Os androides divergentes

Em Detroit: Become Human, existem androides que são chamados de divergentes. Trata-se de “máquinas” que passam a questionar sua própria “vida” e a deixar de executar as tarefas para as quais foram programadas/criadas. Muitos supõem que os divergentes são o resultado de um mau funcionamento de software, mas a verdade é que “o buraco é bem mais embaixo”.

Detroit: Become Human

Uma sociedade complexa e perturbada

Seu número cresce cada vez mais, tudo isto enquanto aumenta o desemprego nos Estados Unidos justamente devido ao grande número (milhões) de robôs em operação, realizando tarefas as mais diversas, desde trabalhos domésticos até operações militares.

Com tudo isto acontecendo, a população (pelo menos grande parte dela), começa a odiar as máquinas, culpando-as por uma série de problemas vigentes, ao mesmo tempo em que estas últimas se sentem cada vez mais vivas. Pensantes. Divergentes!

Detroit: Become Human

Aliás, é digno de nota, também, o grande questionamento que Detroit: Become Human traz à tona: seriam os androides da CyberLife seres vivos? Teria a empresa criado um novo tipo de criatura, com vontade própria, com desejos, com ânsia pela vida?

Também é importante destacar a excelente atuação de Jesse Williams (Markus), Valorie Curry (Kara) e Bryan Dechart (Connor).

Um porto seguro

Bem, mas afinal de contas, o jogo nos apresenta até a um grupo de androides reunidos em um local conhecido como Jericho, os quais começam a tramar várias ações tendo em vista mostrar ao mundo que eles estão, sim, vivos, e que merecem a liberdade, ao invés de serem tratados como meros escravos dos humanos.

Detroit: Become Human

Complicações

A androide Kara, no início da trama, se vê às voltas com um pai violento que maltrata a filha pequena, Alice. Connor, por sua vez, é uma espécie de “androide dedo-duro” que auxilia na investigação que tem como alvo justamente os divergentes, ao lado do mal-humorado detetive Hank Anderson.

Detroit: Become Human

Markus, por sua vez, talvez seja o personagem mais complexo e detalhado da história, com sua ânsia de liberdade e seu enorme desejo de ajudar seu povo. Markus acaba se tornando uma espécie de líder em Jericho, vale destacar, e é justamente na pele dele que acabamos vivenciando os momentos mais traumáticos de Detroit: Become Human.

Que fique bem claro: há violência no jogo. Perpetrada por ambos os lados, máquinas e humanos. Mas na grande maioria das vezes, as escolhas que fazemos moldam o nosso caminho até a paz ou a luta.

Detroit: Become Human

É óbvio que existem situações bastante complicadas. O jogo nos apresenta, como eu já disse acima, questões morais muito complicadas. Sacrifícios, muitas vezes, podem ser feitos, em prol de um bem maior, e também como já afirmado, é possível que determinados personagens chave morram durante o processo.

Detroit: Become Human

Vivenciamos inclusive, em Detroit: Become Human, uma verdadeira guerra entre humanos e androides. Estes últimos nada mais querem que sua liberdade. Eles nada mais desejam além do direito de ir e vir sem serem subservientes a ninguém.

Eles acreditam, verdadeiramente, que são seres vivos, que devem possuir direitos iguais aos humanos. E se pararmos para pensar, com tudo aquilo que observamos e executamos enquanto jogamos, não é possível deles discordar.

Eles sentem empatia. Eles choram. Morrem. Ajudam uns aos outros. Se sacrificam, muitas vezes. São avançadíssimos, inteligentes ao extremo, e não hesitam em ajudar os humanos que tanto os odeiam, também.

Detroit: Become Human

Talvez a realidade mostrada por Detroit: Become Human não esteja assim tão distante de nós quanto pensamos, se pararmos para observar toda a tecnologia que nos rodeia, diariamente. Talvez cheguemos, verdadeiramente, a um momento em que dividiremos nossas tarefas diárias com máquinas extremamente avançadas. Inteligentes, mesmo.

O fato é que o game da Quantic Dream apresenta tudo isto de uma forma extremamente crível. No controle de Kara, Markus e Connor, temos a impressão de estarmos lidando com personagens jogáveis representando seres humanos de verdade, tamanha é a força de suas atuações, tão forte é a impressão por eles deixada em nós.

Detroit: Become Human

Na verdade, temos aqui verdadeiros exemplos de protagonistas de peso: com personalidades complexas, capazes de se enfurecer ou de demonstrar carinho e amor, capazes de amarem uns aos outros (aguarde – no final do jogo isto poderá ser melhor apreciado), e também capazes de perdoar aqueles que tanto os odeiam, por motivos os mais diversos.

É verdade que Detroit: Become Human é repleto de QTEs (Quick Time Events), da mesma forma que outros trabalhos da Quantic Dream. Mas este fato não chega a representar nenhum demérito, uma vez que a trama do jogo é de altíssima qualidade – sem falar nos personagens e acontecimentos extremamente impactantes.

O final do jogo? Bem, digamos que tudo depende. Os androides querem ser reconhecidos como seres vivos, e manifestações podem ser então empreendidas, com resultados os mais diversos. Estas podem ser pacíficas ou não: tudo depende da mão do jogador.

Detroit: Become Human

Há também a mobilização das forças armadas, vale ressaltar, e o fim de tudo pode também ser desastroso, para um ou outro lado: tudo depende, vale ressaltar mais uma vez, das decisões que você tomar ao longo do gameplay.

Aquele “gosto amargo” pode ou não encher sua boca. Detroit: Become Human é um jogo no qual toda e qualquer decisão tem impacto importantíssimo no desenrolar dos acontecimentos, na evolução de cada personagem e em sua trajetória dentro da trama.

É possível chegar a um mesmo destino através de mais de um caminho, vale ressaltar, e aquele sensacional diagrama que mencionei acima sempre exibe os caminhos que não percorremos, as decisões que optamos por não escolher (tudo devidamente escondido – você precisará jogar novamente para saber).

Detroit: Become Human

Finalizando

Este é um jogo como nenhum outro. Um adventure, talvez? Uma mistura de diversos gêneros? Difícil enquadrá-lo em um gênero, apenas, uma vez que a experiência que ele nos proporciona é verdadeiramente multifacetada.

Os gráficos do jogo são lindíssimos, e podem muito bem causar problemas a alguns jogadores, no PC. Todos os cenários são muitíssimo detalhados, a iluminação e as sombras são soberbas, e se você parar para observar a neve caindo, poderá ficar de queixo caído, tão verossímil é a sua representação no jogo.

Detroit: Become Human

Detroit: Become Human é um daqueles jogos eletrônicos que você finaliza e anseia por mais. Seu fator replay é bastante alto, aliás, tudo devido ao enorme leque de opções e caminhos que podemos escolher e tomar durante o gameplay.

Aliás, posso estar aqui divagando, mas com base nas minhas decisões e no final que obtive, tenho a impressão de que ainda veremos um Detroit: Become Human 2.

Ficha técnica

Título: Detroit: Become Human

Gênero: aventura, ação

Desenvolvedora: Quantic Dream

Publisher: Quantic Dream

Data de lançamento: 25 de Maio de 2018 (PS4) / 12 de Dezembro de 2019 (PC)

Plataformas: PC, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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