Foi “triste” chegar ao final de Death Stranding. À 505 Games, que gentilmente me forneceu a chave do jogo para PC, gostaria de pedir desculpas. Desculpas porque o jogo acabou me “engolindo”, e acabei demorando mais para publicar este review.

Fui engolfado pelo mais recente trabalho de Hideo Kojima, como alguém indefeso em um barco que é levado pelas ondas poderosas do oceano, sem saber ao certo onde tudo vai dar. Sem noção de tempo. Sem saber se o final da jornada será recompensador, ou se tudo o que restará será um gosto amargo na boca.

Death Stranding

Sam Porter Bridges descansando…

Foram quase 70 horas de jogo, devidamente registradas pelo marcador interno do próprio game (o Steam marca um pouco mais: cerca de 73 horas). Foram quase 70 horas de gameplay dentro de um universo meticulosamente criado. E foram mais de 10.000 screenshots capturadas!

Death Stranding

O “Photo Mode” em ação

Tudo isto dentro de um jogo que é, não tenho a menor dúvida, um dos melhores lançamentos de 2020 (no PC, é claro, pois no PS4 Death Stranding foi lançado em 2019).

Death Stranding é arrebatador. Estonteante. Maravilhoso. Deliberadamente dotado de uma trama extremamente complexa, que pode muito bem dar nós em muitos neurônios. Ele é, também, um jogo complexo no que diz respeito às mecânicas e sistemas envolvidos. Sem falar que ele é belíssimo!

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Death Stranding: uma obra prima!

Quando Hideo Kojima saiu da Konami, em 2015, e anunciou que seu próximo jogo seria exclusivo do PlayStation 4, fiquei um tanto quanto triste. Mas também feliz, pois de certa forma, aquela mente brilhante que tantos ótimos jogos já nos deu não iria cair no esquecimento, digamos. Death Stranding é obra da mesma mente criadora de Metal Gear, por exemplo.

E que jogo, meus amigos. Que jogo! Uma verdadeira obra prima oriunda das mentes de Kojima e de seus colaboradores. Uma narrativa de primeira! Gráficos, ainda mais no PC, lindíssimos!

Uma trilha sonora não lá muito presente mas que quando aparece o faz de forma magistral. Personagens complexos, assim como o é a trama, e muitos, muitos motivos para questionamentos os mais diversos!

Death Stranding

Assim é Death Stranding, um jogo que eu recomendo firmemente que você jogue, e tanto faz se no PC ou no console da Sony: a experiência base, afinal de contas, é a mesma. Sam Porter Bridges e sua jornada para expandir a rede quiral sobre aquilo que um dia foi os EUA estão lá, tanto no console quanto nos computadores!

Death Stranding é, de certa forma, um jogo pós-apocalíptico, mas ele vai bem além disto, e lida também com elementos tais como, por exemplo, vida após a morte, física, química, viagens no tempo, mitologia egípcia e, é claro, como já deu para perceber, conta também com muitos elementos de ficção científica.

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Confesso que eu mal podia aguardar pelos períodos em que iria jogar Death Stranding, tão envolvente é o game, tão marcante é a impressão em nós deixada por sua narrativa, por sua premissa, por seus personagens e por seu a princípio nada simpático protagonista, o qual também sofre de Afefobia.

Death Stranding não é um “Euro Truck Simulator 2 sem caminhões”

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Protagonista este, diga-se de passagem, que é interpretado pelo ator Norman Reedus (aquele mesmo, do seriado The Walking Dead). Muito bem interpretado, aliás, isto sem falar em outros atores que ajudam a dar vida a personagens também fantásticos.

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Cada minuto, cada hora passada “simplesmente fazendo entregas”, é algo verdadeiramente surpreendente. E esqueça, por favor, qualquer preconceito e/ou julgamento prévio com base naquilo que muitos dizem por aí, a respeito do jogo ser um “mero simulador de carteiro”.

Sam Porter deve realizar entregas de diferentes tipos, sim. Ele tem de entregar “pacotes” de diferentes tipos e tamanhos, contendo elementos os mais diversos (em determinas missões, até “bombas antimatéria” são transportadas).

O jogo conta com 14 episódios, cada um deles com seus respectivos conjuntos de pacotes a serem entregues. No total, temos 14 missões e 70 pedidos principais.

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Os vilões…

Cada pedido, veja bem, é uma missão principal. Existem também side quests, para destinatários os mais diversos, e até podemos atuar como uma espécie de “cupido do futuro”, em uma delas, ajudando a reunir um casal separado pelo Death Stranding, o grande EE (ou Evento de Extinção) que acometeu os EUA (e pelo que podemos subentender, o mundo inteiro, também).

Cada pedido, cada “order”, obriga o jogador a planejar meticulosamente sua rota, e é bem verdade que uma “mera” entrega cujo destinatário está à apenas 700 metros de distância pode se transformar em uma longa e difícil jornada de, quem sabe, 2 ou 3 mil metros.

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De vez em quando, podemos até mesmo contar com veículos, todos eles elétricos, incluindo picapes e triciclos. Mas grande parte das vezes, dadas as dificuldades impostas pelos terrenos e também pelas EPs (falarei mais a respeito disto abaixo), é mais “tranquilo”, ou, quem sabe, mais sábio, realizar todos os percursos à pé.

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Um jogo para ser degustado com calma

Isto sem falar na Chuva Temporal (também falarei mais a respeito disto abaixo), a qual acaba por ocasionar sérios problemas tanto a Sam, o Grande Portador, quanto às cargas que ele transporta.

Aliás, gravei um pequeno vídeo de gameplay de Death Stranding, o qual segue abaixo. Trata-se de cerca de 5 minutos de gameplay, coisa bem rápida (em 1080p):

Voltando ao jogo, você deve literalmente degustá-lo. Jogá-lo com calma. Com paciência, e prestando atenção (enorme) à todos os seus detalhes, incluindo (e talvez principalmente) sua enorme e intrincada narrativa.

Vale ressaltar que as mecânicas do game são até um tanto quanto complexas, e mesmo após cerca de 20, 30 horas de jogo, você ainda será apresentado a algum rápido tutorial: mas não se preocupe, tudo é feito de forma bastante orgânica, e o novo título de Kojima se sai muito bem também aqui.

Mas veja: não é difícil jogar Death Stranding. Com isto quero dizer o seguinte: não é difícil dominar suas mecânicas, seus comandos, decorar os botões ou teclas que fazem isto ou aquilo. É preciso apenas um pouco mais de paciência, por parte do jogador.

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Conforme o tempo de jogo se acumula, você se transformará em um “craque” no “manuseio de seu Sam Bridges pessoal”, valendo também a pena lembrar que o jogo é muito mais fácil e gostoso de se jogar com um controle, mesmo no PC (utilizei um do Xbox 360).

Uma narrativa de Peso

A narrativa de Death Stranding é fenomenal. Incrível, eu diria. Uma das melhores histórias que já tive o prazer de experimentar em minha vida, e aqui incluo a trama, os personagens e a ambientação, bem como todos os eventos paralelos relacionados.

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Kojima acertou em cheio. Não errou a mão em nenhum momento. E pode ficar tranquilo, pois você não encontrará spoilers ao longo deste review. Bem, digamos que Death Stranding seja um amálgama de várias e bem sucedidas ideias e conceitos.

Death Stranding

Temos um evento apocalíptico conhecido como Death Stranding, o qual além de dar nome ao game, também deixou os Estados Unidos (e o mundo inteiro, pelo que tudo nos leva a crer) meio que “desconectado”. Pessoas (muitas) também morreram, nas chamadas Obliterações.

Temos também a “presença” de entidades pertencentes ao mundo dos mortos, as tais EPs (em inglês, BPs). Bem, na verdade, cada EP está meio que presa, entre dois mundos, e ainda conectada ao mundo dos vivos através de uma espécie de cordão umbilical.

Sam utiliza um bebê (o BB-28), conectado ao seu próprio corpo e preso dentro de um invólucro, para detectar tais EPs, tudo isto em conjunto com uma espécie de scanner conhecido como Odradek.

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Esbarrar em uma EP e/ou nos cordões que também ligam umas às outras faz com que Sam seja, então, atacado. E aí o jogo assume ares de um título de horror, com figuras saindo do solo e tudo.

Obs: elas sugerem até que desejam levar Sam para as profundezas, consigo.

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Referências e incríveis momentos e entregas

A missão principal de Sam, em Death Stranding, é expandir a rede quiral. Por todo o território daquilo que um dia foi os Estados Unidos da América. Da Costa Leste à Costa Oeste. E através de muito trabalho. árduo.

Pense na tal rede quiral como uma espécie de “internet”, porém muitíssimo mais poderosa. Coisa futurista, mesmo, que permite inclusive, através de impressoras quirais, a fabricação de itens os mais diversos, como por exemplo caixas de correio, tirolesas gigantes, estradas, pontes, e por aí vai.

Isto sem falar em veículos, que também podem ser fabricados nos diversos centros de distribuição que Sam visita. Além disso, vale destacar que o termo “quiral” vem do grego kheir (χειρ), e significa “mão.

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Pois é justamente as mãos das EPs que visualizamos, de vez em quando, no solo ou em paredes próximas, quando perto delas. Caso utilizemos o Odradek, obviamente, e após uma “rajada” do scanner, podemos visualizá-las em suas verdadeiras formas por poucos segundos.

Segundos preciosos, diga-se de passagem, para que possamos nos orientar ou então libertá-las, utilizando uma granada ou uma arma com munição hemática.

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Explico: Sam é um Repatriado. Seu sangue, além disso, é especial. E ele é, de certa forma, imortal, e pode sempre retornar ao mundo dos vivos, quando morre. Não que você o verá morrendo muitas vezes durante o gameplay: grande parte das vezes, quando você é detectado pelas EPs, acontece uma batalha contra um “chefão”, se você for rápido o bastante.

Tal chefão é sempre representado por uma EP negra com enormes semelhanças a algum animal, e quando tais batalhas ocorrem, Sam tem de abrir caminho em meio a um negro e viscoso oceano de alcatrão.

Obs: conexão, em Death Stranding, é algo muito importante, e não demora muito até o jogador perceber este fato. Conexão com a UCA, com outros jogadores, através do multiplayer (veja abaixo), com membros de sua equipe, etc.

Sobrevivência e dificuldades

Death Stranding também é um jogo de sobrevivência. Planeje de forma errônea o equipamento que você levará em uma entrega (você sempre pode consultar a rota com antecedência, visualizando possíveis montanhas e rios), e provavelmente se verá em maus lençóis.

Escadas, cordas para escaladas ou rapel, bolsas de sangue (sim, bolsas de sangue podem ser conectadas ao corpo de Sam e realizarem transfusões automáticas quando ele sofre algum dano), botas, armamento não letal ou letal (lembre-se de que ao matar alguém, você estará contribuindo para que o mundo tenha mais EPs), etc.

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Também é possível fabricar, em cada estação, centro de controle ou QG, vários outros itens, tais como, por exemplo, triciclos, caminhonetes, etc. E existem ainda os elementos relacionados ao multiplayer, a respeito dos quais comentarei mais abaixo: e acredite – é tudo extremamente interessante!

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Bem, viajar bem equipado requer o carregamento de um grande número de materiais, o qual é geralmente levado por Sam em suas costas, ou então pendurado em seu traje ou porta-utensílios.

Cargas e terrenos em Death Stranding

Organizar bem a carga também é extremamente importante, e eu aqui gostaria de recomendar o uso dos exoesqueletos, os quais podem, além de aumentar a capacidade de carga de Sam, fazer com que ele caminhe mais tranquilamente quando em meio à neve, por exemplo. Existem vários tipos de esqueletos, aliás – é sempre importante lembrar.

Perceba que, ao transportar um peso enorme em suas costas, o personagem principal tende a “cair”, para um lado ou para o outro. Nestes momentos, o jogador deve então pressionar o botão adequado para que ele “se ajeite” (no meu caso, com o controle do Xbox 360, através do LT ou do RT, que controlam seus lados esquerdo e direito, respectivamente).

O centro de gravidade de Sam deve ser sempre levado em consideração, e note que ao jogar, ao controlá-lo, você irá quase sempre percorrer terrenos extremamente acidentados, além de subir em montanhas altíssimas.

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Nestes momentos, pode ser necessária a utilização de escadas, por exemplo, ou então de outros tipos de equipamentos. Sobreviver nas difíceis áreas geladas próximas a Mountain Knot City, por exemplo, é muito complicado.

Sam pode ter sua velocidade bastante reduzida, caso a energia de seu exoesqueleto especial acabe (estes são geralmente recarregados através de energia solar), e não faltam momentos de fortíssimas tempestades de neve.

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Nestas situações, a utilização de veículos é altamente desaconselhável, sem contar que a chuva pode também complicar bastante as coisas. Ainda mais.

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Um multiplayer cooperativo inovador

Death Stranding tem multiplayer. Mas não é como a grande maioria das pessoas pensa. Trata-se, digamos, de algo cooperativo. E assíncrono. Por exemplo, você pode construir estruturas que podem ser utilizadas por outros jogadores. E vice-versa. O mundo do jogo é compartilhado e cooperativo.

Muitas vezes, no maior desespero quando em meio a uma íngreme montanha, fui salvo por uma escada ou corda que algum outro jogador, real, “plantou”, ali. Nestes momentos, podemos até mesmo dar curtidas para a estrutura em questão.

Também podemos sinalizar o caminho, colocando uma série de placas indicativas em qualquer lugar, ao nosso bel-prazer. O inverso também é verdade, obviamente, e podemos ser avisados através de tais placas por outros jogadores sobre o fato de que existem EPs no trecho adiante.

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Nos seus próximos logins no jogo, você sempre será notificado a respeito dos jogadores que utilizaram estruturas que você construiu, e vice-versa. Aliás, podemos construir, através de um equipamento chamado CQP, vários tipos de elementos.

Caixas de correio, tirolesas, abrigos contra a Chuva Temporal, geradores (que carregam a bateria de veículos – imagine-se sendo salvo por um desses, em um dia nublado), caixas de entrega, nas quais podemos entregar, por exemplo, cargas que outros jogadores deixaram cair pelo mundo do jogo – e receber os devidos louros – etc. Isto sem falar em pontes, estradas, etc.

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Curtidas, aliás, estão no cerne deste elemento multiplayer cooperativo assíncrono de Death Stranding, e as próprias telas de estatísticas do jogo, conforme completamos cada uma das entregas, informam quantas curtidas recebemos dos destinatários.

Lembre-se de que o objetivo, aqui, é trabalhar em prol da UCA, ou United Cities of America (União das Cidades Americanas), através da expansão da já agora famosa rede quiral. Conforme Sam atravessa o território daquilo que poderá ser um dia chamado de UCA, ele vai adicionando mais e mais membros a tal rede.

BBs e Chuva Temporal em Death Stranding

Obs: é extremamente fácil, também, perambulando pelo mundo do jogo, topar com um veículo largado por outro jogador. Neste momento, além de dar ao jogador em questão algumas curtidas pela gentileza, você pode utilizar, é claro, o veículo.

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Bem, a empresa para a qual Sam trabalha, a Bridges, possui um projeto um tanto quanto “esquisito”, o qual utiliza bebês humanos desenvolvidos sob condições bastante especiais com a finalidade de detectar EPs.

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Sam possui um destes, o BB-28, e acaba a ele se apegando bastante. Isto apesar dos avisos de seu amigo Dr. Deadman (outro personagem curiosíssimo, cuja história vale a pena você conhecer), sobre o fato dos BBs serem considerados apenas como “ferramentas”. Sim, eu sei, é difícil de aceitar.

Já a Chuva Temporal acelera a passagem do tempo em tudo aquilo que toca. É por este motivo que você deve incluir em sua bagagem sprays “anuladores”, digamos, os quais restauram os invólucros e embalagens a seus devidos estados.

Caso você não faça isto, é muito provável que chegue ao destinatário com uma carga levemente avariada (ou muito danificada), o que resultará, obviamente, em um número menor de curtidas e em um avanço mais lento, o que pode resultar em um tempo maior para o acesso a novas tecnologias (sim, existem níveis de Portadores).

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Ah, e eu não poderia deixar de falar também da Neve Temporal: nos arredores de Mountain Knot City, é muito importante que você planeje sempre com cuidado as rotas que irá usar. Isto sem falar nos exoesqueletos, claro.

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Aliás, não é raro termos de nos desfazer de grande parte de nossa carga apenas para sermos capazes de transportar um certo pedido urgente. Carregar carga nas mãos, mantendo o respectivo botão do controle pressionado, por exemplo, também não é algo impossível de acontecer.

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“Viajando?”

Algumas considerações finais

O título da Kojima Productions é cheio de mistérios que valem a pena serem desvendados. As Praias, por exemplo, representam um deles: trata-se de uma espécie de Limbo, sendo que cada pessoa possui a sua.

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Este jogo é um dos mais fantásticos que tive o prazer de jogar até hoje, em meus 45 anos de vida. Com seu enredo profundo, repleto de referências, muitas delas a certas Entidades de Extinção (ou EEs) que estão relacionadas, algumas vezes, aos eventos que acabaram com os dinossauros na Terra, o game é um primor.

Isto sem falar na trama repleta de reviravoltas e de personagens muitas vezes com intenções dúbias, pelo menos a princípio, os quais quase sempre deixam o jogador com a pulga atrás da orelha.

Death Stranding é grandioso. Uma obra prima, volto a dizer. Um jogo para se jogar com atenção a detalhes, detalhes que muitas vezes fazem toda a diferença do mundo. Em uma palavra: jogue!

Ficha técnica

Título: Death Stranding

Gênero: Mundo Aberto, Sobrevivência, Ação

Desenvolvedora: Kojima Productions

Publisher: 505 Games

Lançado em: PS4 (08/11/2019) / PC (14 de Julho de 2020)

Plataformas: PC, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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