Ainda hoje publiquei minha análise de Quantum Break, excelente jogo da desenvolvedora finlandesa Remedy Entertainment. A empresa consegue me surpreender desde Alan Wake, com suas histórias envolventes, com suas mecânicas bem construídas, com sua ação, muitas vezes, cinematográfica. E Control, mais recente jogo da empresa, também me surpreendeu positivamente.

Anunciado durante a E3 2018, Control chegou ao mercado sem fazer grande alarde. Pelo menos, sem as grandes ações de marketing que fizeram parte do lançamento de Quantum Break, em 2016. E o título é surpreendente, ao nos apresentar uma narrativa também surpreendente e que beira o surreal, muitas vezes.

Game Control

A parceria com a publisher 505 Games parece ter dado muito certo, e o jogo foi lançado como um exclusivo da Epic Games Store (no PC – versão que joguei). Podemos encontrar em Control um pouquinho de tudo o que a Remedy já fez no passado: Alan Wake, Max Payne, o próprio Quantum Break – você escolhe.

Game Control

O fato é que o novo título, lançado em 27 de Agosto de 2019, tem tudo para agradar aos fãs de um bom jogo de ação com perspectiva em terceira pessoa, com grandes toques de elementos sobrenaturais e muita adrenalina, sem falar em mistérios muitas vezes insondáveis.

A história de Control é assinada por Sam Lake, roteirista extremamente talentoso da Remedy. Tal história, aliás, aparenta ser a mais complexa na história da empresa até o presente momento, e em muitos momentos o jogador pode parar e pensar: “- O que será que esse cara fumou ou bebeu”?

Mas vamos aos fatos em si. A protagonista do jogo, Jesse Faden (estupendamente interpretada pela atriz Courtney Hope), é a nova diretora de uma organização denominada Federal Bureau of Control, ou Departamento Federal de Controle. Ela assume o cargo meio que sem querer: na verdade, o cargo lhe é empurrado goela abaixo, e ela passa então a ser assombrada pelo antigo diretor.

Game Control

Jesse estava em busca de seu irmão mais novo, Dylan, o qual desapareceu sob circunstâncias misteriosas dezessete anos atrás, em um evento que tem tudo a ver com o Departamento Federal de Controle.

Acontece que a tal instituição foi tomada por forças sobrenaturais, as quais são chamadas, no jogo, de “Ruído”. Tais forças são capazes de corromper qualquer ser humano, e grande parte dos inimigos que enfrentamos durante o gameplay são seres humanos, antigos funcionários/soldados do Bureau, que foram corrompidos pelo tal Ruído.

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Existe, obviamente, um certo dispositivo utilizado por alguns membros da Agência, o qual impede a “possessão”. E, inexplicavelmente, Jesse Faden é imune ao ruído, e também conta com poderes muito mais do que especiais (e sobrenaturais), incluindo telecinese e levitação. Além disso, Jesse pode também utilizar uma arma chamada “Arma de Serviço”, a qual é capaz de receber diversas modificações e, assim, servir a diversas finalidades.

Meu modo de uso preferido da arma, falando nisso, é o “Estilhaço”, o qual simula uma espécie de escopeta, mas também temos, por exemplo, o modo/forma “Giro”, que simula uma espécie de metralhadora.

Jesse pode também se deslocar de forma extremamente veloz pelos ambientes, e vale a pena ressaltar aqui a necessidade de movimentação constante, pois os inimigos se apresentam sempre em grandes quantidades e contam com uma inteligência artificial apuradíssima.

Game Control

Eles nos flanqueiam, eles buscam por cobertura tão logo começamos a neles atirar, eles lançam granadas e foguetes, e não são assim tão fáceis de serem eliminados.

Game Control

Há em Control vários momentos que nos remetem a Matrix e a Arquivo X, com todo aquele mistério em torno dos casos/assuntos sendo discutidos, com toda aquela complexidade imbuída na trama. O jogo também segue, como já de praxe, a “cartilha” da Remedy, entregando ao jogador uma grande parte da narrativa através de bilhetes, anotações e gravações em vídeo.

Não deixe de conferir todo este material, conforme o vai encontrando, pois você precisa tentar entender pelo menos o mínimo a respeito do que está acontecendo ao seu redor para que o jogo faça algum sentido.

Vale ressaltar que todos os documentários em vídeo foram feitos com atores reais: eis aí mais uma prova do altíssimo valor de produção de Control, jogo que chegou, literalmente, para arrebentar, sendo sem sombra de dúvidas um dos grandes lançamentos de 2019.

Game Control

Jesse, de maneira um tanto quanto similar àquilo que vimos com o Curador em Man of Medan, também quebra a quarta parede, meio que conversando com o jogador, fazendo suposições enquanto dialoga com aliados encontrados ao longo da narrativa.

Os mistérios em Control começam logo no início: não pense você que o jogo demora a engrenar. Logo ao chegar ao Departamento Federal de Controle, Jesse encontra tudo abandonado, e sua transformação em diretora pertence a um momento no mínimo inusitado (o momento em que ela adquire a Arma de Serviço, aliás).

Game Control

Vale mencionar também a Antiga Casa, o quartel general do Bureau. Trata-se de um local repleto de instalações estranhas e de conexões com vários planos astrais. O local encontra-se em constante mutação, e não possui, segundo os próprios membros do Bureau, nenhum tipo de forma de controle.

Game Control

A Antiga Casa se expande, muda, emerge em outros locais, se transforma radicalmente, e não deixa de oferecer passagens mais do que estranhas para outras realidades. Fica também bastante óbvio desde o início que experimentos eram ali realizados. Experimentos tendo em vista a obtenção de Objetos de Poder (como a Arma de Serviço) e também de mais conhecimento a respeito dos elementos sobrenaturais que permeiam o local.

Dignos de nota também são os elementos e cenários totalmente destrutíveis do game. Uma cobertura até há pouco tempo atrás segura pode em questão de segundos se transformar em um risco, sob saraivadas de balas que vão derrubando todo o concreto. Da mesma forma, Jesse pode utilizar tudo isto a seu favor. A nova diretora da Agência é capaz de arrancar pedaços do chão ou das paredes e arremessá-los contra os inimigos.

Game Control

Isto sem falar em elementos  os mais diversos espalhados pelos cenários, como por exemplo extintores de incêndio, mesas, cadeiras, arquivos, escrivaninhas, etc: grande parte do cenário é passível de interação, além de ser totalmente destrutível, para o bem ou para o mal.

Game Control

Jesse Faden

Em Control, precisamos nos movimentar constantemente: não faça isto e você se verá cercado ou então atingido por snipers possuídos, por mísseis, por granadas, ou por tiros vindos de inimigos que de repente te flanquearam sem que você se desse conta.

Trata-se de um jogo de ação extremamente dinâmico, com exigência constante de uso das habilidades paranormais de Jesse e da Arma de Serviço. Aliás, falando agora sobre a Armas de Serviço, é importante destacar que ela possui munição infinita: apenas é necessário aguardar por alguns segundos de recarga tão logo o “pente” se esvazie (a munição com certeza vem do “além”).

Existem também mods que podem ser aplicados à Arma de Serviço, os quais são capazes de aumentar seu poder de fogo, reduzir o “tranco”, aumentar a cadência de tiro, e por aí vai. Jesse, por sua vez, também é capaz de coletar e utilizar diversos mods, os quais podem lhe conferir mais energia (necessária para o uso de suas habilidades paranormais), mais saúde, etc.

Game Control

O “Ruído”, o elemento sobrenatural que corrompeu o Departamento Federal de Controle, é também audível: podemos ouvir nitidamente um murmúrio incessante e perturbador em muitos momentos, momentos em que observamos estranhos corpos humanos suspensos no ar e nos quais podemos atirar.

Trata-se de um elemento extremamente interessante, além de misterioso, e a forma como os agentes possuídos agem também é digna de nota: eles perseguem a protagonista à qualquer custo, e se você é do tipo de jogador que fica escondido e se aproveitando de erros inimigos, pode tirar o cavalo da chuva.

A IA do jogo faz com que os inimigos também se movimentem constantemente, e eles não só são capazes de flanquear, como são capazes de causar grandes estragos ao lançar contra nós, também, elementos presentes nos ambientes (você irá, certamente, se deparar com os possuídos voadores – estranhas criaturas capazes de causar grandes danos a Jesse, caso esta não tome bastante cuidado).

Mas agora gostaria de comentar a respeito de uma grande falha em Control: a Remedy continua insistindo em não incluir um sistema de cobertura verdadeiro em seus jogos. O máximo que temos é um agachamento atrás de certas estruturas propícias, o qual, entretanto, não é automático (nós devemos pressionar o devido botão para que a protagonista se agache).

Além disso, é muito fácil sair da cobertura, e quando isto acontece no meio de um tiroteio frenético, bem, os resultados podem ser desastrosos, principalmente porque o design dos níveis do jogo geralmente nos leva a cenários com vários pontos de entrada e de saída, a lugares repletos de atalhos, escadarias, portas, entradas, etc.

Game Control

Control roda na engine Northlight, da própria Remedy, e seus gráficos são muito bonitos. Existem, entretanto, vários problemas relacionados à performance, pelo menos no PC. Quedas bruscas de framerate, por exemplo, são uma constante. E as telas de loading são sempre extremamente longas: é preciso muita, muita paciência.

Há também um grande problema em relação aos checkpoints: muitas vezes ultrapassamos determinado cenário, derrotando todos os inimigos da área, e ao chegar no próximo local, somos mortos. Ok, tudo bem, vimos perfeitamente em tela o ícone relativo ao salvamento prévio.

Acontece que somos obrigados, várias vezes, a atravessar a área anterior novamente, até chegarmos no tal próximo local, e o problema é que algumas vezes o jogo insere nesta área já “vencida” mais inimigos, complicando nossa vida: minha solução para este caso foi utilizar a supervelocidade de Jesse e “passar voando” por todos os inimigos, rumo a meu próximo objetivo. E isto sem prejuízo algum em relação ao gameplay.

Outro problema de Control está relacionado ao sistema de orientação. Ou melhor, ao rústico mapa que vemos em tela: ele é bastante difícil de ser entendido, pelo menos a princípio, principalmente porque estamos em um local com vários andares e isto não fica bem claro em tal mapa. Além disso, para utilizá-lo, precisamos deixá-lo aberto em tela, enquanto andamos, e é óbvio que isto atrapalha bastante o jogo em si.

Game Control

De qualquer maneira, Control é, sem sombra de dúvidas, o projeto mais ambicioso da Remedy até hoje. Seu jogo mais complexo, mais bonito, mais vivo. Com mecânicas surpreendentes e um enredo pra lá de complexo e estranho/mirabolante, além de um nível de dificuldade acima da média (o que pode ser bom ou ruim, dependendo do jogador em questão), o novo título da Remedy Entertainment consegue facilmente seu lugar no seleto grupo de candidatos a melhores games de 2019.

Ficha técnica

Título: Control

Gênero: ação, sobrenatural, ficção científica

Desenvolvedora: Remedy Entertainment

Publisher: 505 Games

Data de lançamento: 27 de Agosto de 2019

Plataformas: PC, Xbox One, PlayStation 4

Versão analisada: PC

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