Alguns jogos justificam nosso hype, quando finalmente lançados. Outros não. Close to the Sun felizmente pertence à primeira categoria, devo dizer logo de início. O título, com perspectiva em primeira pessoa, mistura horror, aventura e ação, e é obra do estúdio italiano Storm in a Teacup, fundado por Carlo Ivo Alimo Bianchi em 2013.

Carlo, por sua  vez, passou por algumas gigantes da indústria de games, como por exemplo Ubisoft, Square Enix, Crytek e Warner Bros Games, e sua empresa nos entrega hoje um jogo verdadeiramente focado em um enredo de altíssima qualidade.

Um enredo de altíssima qualidade

Muitos (inclusive eu mesmo), antes do lançamento de Close to the Sun, o comparavam à franquia BioShock, devido à estética art déco, devido aos trechos da narrativa que foram divulgados, e também devido a seus gráficos no geral.

Close to the Sun

Mas o que temos em mãos, finalmente, é bem diferente de BioShock (guardadas as devidas semelhanças gráficas). Tudo acontece em 1897, em uma realidade alternativa onde Nikola Tesla, o famoso inventor que viveu entre 1856 e 1943, e sua empresa, a Wardenclyffe, travam verdadeiras batalhas comerciais contra empresas rivais e/ou opositores.

Em uma realidade onde Tesla atingiu o ápice de seu sucesso como inventor e cientista, na qual ele também tenta lidar com coisas como espionagem industrial, por exemplo.

A rivalidade entre Tesla e Thomas Edison, aliás, também se faz presente no jogo, e não faltam referências a supostos espiões do inventor da lâmpada elétrica incandescente. Há inclusive um clima bastante hostil, pelo que podemos depreender de anotações e bilhetes espalhados pelos ambientes, incluindo referências a salas de interrogatório e acusações diretas.

Close to the Sun

No jogo, controlamos Rose Archer, uma jornalista que recebe um convite de sua irmã, Ada, para encontrá-la à bordo do gigantesco navio Helios, construído por Tesla e que funciona como uma espécie de utopia científica, abrigando as mentes mais brilhantes da época, com a finalidade de realizar pesquisas diversas em várias áreas do conhecimento; tudo isto livre das amarras de governos e organizações regulatórias.

Ada, a irmã de Rose, por sua vez, é uma física brilhante que caiu nas graças de Tesla, e é justamente devido às suas pesquisas no Departamento de Física do Helios, em uma divisão especial chamada “Divisão de Ressonância Dimensional” (este nome faz soar um alarme mental, não é?), que são desencadeados todos os eventos catastróficos que observamos no game.

Acontece que a pesquisa de Ada fez com que uma espécie de brecha fosse aberta no espaço-tempo, e à partir daí o passado e o futuro meio que se misturaram, e elementos de um e de outro começaram a escapar, sem controle: daí a tal quarentena instaurada, a qual tanto observamos nos trailers pré-lançamento. Há também menções (e elementos) relacionados a outras dimensões, vale destacar: tudo relacionado à pesquisa de Ada Archer.

Close to the Sun

Close to the Sun e o próprio navio gigante Helios contam também com estranhas e magníficas tecnologias, as quais seriam muitíssimo bem vindas, aliás, nos dias atuais. Espere por diversos projetos, pesquisas e/ou protótipos de Nikola Tesla, como por exemplo a bobina e a Torre de Tesla, o Raio da Morte, campos eletromagnéticos, etc. Espere por muita ciência, além de muitos elementos steampunk.

Uma protagonista extremamente frágil

Vale destacar logo de início que Rose, a protagonista, é extremamente frágil. Em um jogo repleto de perigos e horrores, tudo o que ela pode fazer é correr, quando o perigo aparece à sua frente. Correr de forma desesperada, diga-se de passagem.

Rose, em sua enorme fragilidade, chora, se desespera várias vezes, lamenta bastante alguns acontecimentos, e não possui, além disso, nenhum tipo de arma em suas mãos. Em nenhum momento.

Close to the Sun

A personagem principal representa, de certa forma, um grande contraste em relação aos colossais, belíssimos, imponentes e assustadores ambientes do Helios. A chegada ao Helios, por falar nisso, é fenomenal: observá-lo parado, ao longe, em meio a uma tempestade terrível e enquanto estamos à bordo de um pequeno barquinho autômato (obra de Tesla, também), é quase que indescritível, dado seu enorme tamanho, dada sua imponência, dada, também, sua beleza.

Rose também tem de fugir desesperadamente, diversas vezes. E não adianta, por falar nisso, tentarmos enfrentar ameaça alguma: será morte na certa. São momentos em que encaramos perseguições assustadoras, as quais, caso não sejamos rápidos, acabam em mortes horríveis, também com verdadeiros requintes de crueldade, além de muito sangue.

Close to the Sun

Os horrores do Helios

Mas tão logo chegamos à bordo percebemos que algo está errado. Salões enorme estão vazios. Ninguém aparece para nos receber, e apenas temos como companhia a voz de Ada, através do rádio.

Pouco a pouco Rose percebe que algo de muito estranho aconteceu por ali, e não demora até que ela se depare com cenas assustadoras. Com cadáveres desmembrados. Com pessoas mortas com aparentes requintes de crueldade.

Com cadáveres destroçados de forma bestial. Com mortos em decomposição espalhados às dezenas (além de muitas moscas rondando), com muito sangue borrifado nas paredes e com frases escritas com o líquido vermelho em diversos locais (“Time is not a river” é uma delas).

Todos os ambientes do Helios são lindíssimos, e a estética art déco está representada de forma magnífica em Close to the Sun. Temos ambientes que misturam elementos clássicos e “antiquados”, como por exemplo máquinas de escrever, com maquinário futurista muitas vezes com funcionalidade desconhecida.

Close to the Sun

Temos áreas colossais e belíssimas, como o estupendo Teatro, e temos também apartamentos, corredores e escritórios, além de laboratórios, jardins e salas de cirurgia, quase sempre repletos de corpos, de coisas largadas às pressas, de muita informação na forma de bilhetes e colecionáveis (explore bastante os ambientes em busca destes itens).

O gigantesco navio parece convidar o jogador à exploração, apesar da linearidade do jogo, a qual sempre nos mantém “nos trilhos”. Além disso, tão imersivo é o jogo (não existe tutorial, não existe HUD, não existe nenhum tipo de informação exibida em tela durante o gameplay), que somos levados a crer que algo de terrível será visualizado ao dobrarmos a próxima esquina ou ao abrirmos a próxima porta pneumática.

Close to the Sun

Close to the Sun não tem o horror como foco principal, mas este é derivado de sua ambientação, de sua narrativa, dos elementos com os quais nele lidamos. É como se o horror escapasse, de alguma forma, de canos furados imaginários e suspensos, e gotas dele nos banhassem durante todo nosso trajeto, em todos os cômodos, em todos os cenários, em quase todos os momentos.

Close to the Sun

A própria brecha no espaço-tempo acima mencionada serve como força motriz para tais horrores, e o jogador, assim, acaba jogando sempre com grande tensão, sempre prestando enorme atenção em cada canto da tela, à espera (e com medo) de alguma cena assustadora. De algo terrível. De mais corpos. De mais frases assustadoras escritas com sangue nas paredes.

O enorme Helios, vazio, acaba se mostrando, apesar de sua beleza, um cenário assustador, repleto de motivos para fugirmos, para cedermos à pressão, para tentarmos de todas as maneiras dele escapar.

Close to the Sun

Ah, sim, já ia me esquecendo: o Helios, de tão grande, conta inclusive com um sistema de railcars, o qual percorre todo o navio e serve para que pesquisadores e funcionários se locomovam com mais facilidade e rapidez.

Companhias durante a jornada

Durante nossa jornada através do navio de Nikola Tesla, temos como companhia, uma vez ou outra, a voz de Ada, pelo rádio. Temos também, à partir de determinado momento, a voz de alguém chamado Aubrey como companheira. Trata-se de um homem que está preso em algum ponto do navio, o qual solicita a ajuda da protagonista para escapar.

Aubrey é um tanto quanto estranho (ele conversa com o corpo de um suposto amigo morto, dada sua solidão), e também possui papel crucial na narrativa, além de ajudar Rose em vários momentos, abrindo portas, ligando ou desligando sistemas, indicando caminhos a seguir, etc. Existem surpresas relacionadas ao personagem, também, mas como sempre, no XboxPlus, spoilers estão fora de qualquer cogitação.

Close to the Sun

Puzzles e gameplay

Close to the Sun conta com alguns puzzles, mas eles não são muito difíceis. Isto acontece, felizmente, sem ofender a inteligência do jogador, vale destacar. Além disso, durante o gameplay, temos de interagir com diversos elementos do navio, como alavancas, switches, botões, etc. Tudo visando abrir caminho, colocar maquinário necessário ao progresso em funcionamento, desligar equipamentos que atrapalham nosso progresso, abrir portas, etc.

Os controles do jogo são extremamente simples, além de reduzidos (tanto é que não existe nem mesmo um tutorial). Resumindo: podemos andar normalmente, podemos correr e também podemos interagir com certos símbolos exibidos nos cenários, através dos quais Rose então pode saltar sobre objetos ou atravessar determinadas frestas (ou então se esconder debaixo de algum objeto, como uma mesa, por exemplo).

O título da Storm in a Teacup, além disso, não oferece nenhum tipo de mapa ou bússola para orientar o jogador. Mas isto nem é necessário, dada a linearidade inerente ao game: basicamente, somos meio que “forçados” a caminhar sempre pelos caminhos corretos, salvo uma ou outra sala/departamento extra no qual podemos entrar (mas sempre sem perder a noção de onde estamos, pois tudo é sempre muito limitado, neste quesito).

Close to the Sun

Locais que possivelmente fariam com que nos perdêssemos sem um mapa ou bússola estão sempre bloqueados, como em Layers of Fear, através de portas trancadas, objetos que impedem nossa passagem, entulho espalhado pelo chão, e assim por diante. O level design do título é bastante inteligente, vale dizer.

Observe, no entanto, que a linearidade do game não é um problema: Close to the Sun quer nos contar uma história, e ele assim o faz com maestria. Não se trata de um título focado em exploração, de um título de mundo aberto, nem nada próximo disso. Como afirmaram por diversas vezes os desenvolvedores, o jogo é focado na narrativa, e realmente temos aqui uma história e tanto.

Um mundo à parte

No Helios, temos um “mini mundo” regido por leis diferentes daquelas da civilização normal. O foco, ali dentro, é desenvolver o potencial máximo de cada pesquisador, de cada cientista, a fim de, quem sabe, mudar o mundo de diversas maneiras.

Existem também diversos catálogos e cartazes espalhados pelas paredes, todos parecendo ter como objetivo incentivar visitantes e residentes a darem o máximo de si, visando ao máximo um “futuro brilhante”.

Vejo aqui, aliás, semelhanças com a Rapture de Andrew Ryan, em BioShock, porém no Helios os motivos que levaram à desgraça são totalmente diferentes daqueles da cidade submersa.

Close to the Sun

No enorme navio de Nikola Tesla, algo deu errado com determinada pesquisa, o que abriu, então, o caminho para acontecimentos funestos e imprevisíveis – a desgraça, aqui, foi fruto de um acidente. Um acidente oriundo, talvez, de extrema confiança e/ou pressa, mas ainda assim, um acidente.

Algumas considerações finais

Os gráficos do game, apesar de muito bonitos (CttS foi desenvolvido na Unreal Engine 4), não contam com iluminação avançada. Você percebe que um lugar está iluminado, consegue perfeitamente perceber a fonte da luz, mas esta não reage de acordo, dinamicamente, em tempo real. Por exemplo, a luz não incide de maneira diferente sobre os mais diversos elementos do ambiente, nem mesmo enquanto nos movimentamos.

Além disso, o jogador tem que conviver com telas de loading extremamente longas, as quais chegam a irritar, algumas vezes. O jogo também não conta com legendas em português, o que pode representar um grande problema para quem não possui noções de inglês.

Os modelos dos personagens, aliás, nas poucas vezes em que com eles temos contato, são um tanto quanto feios (principalmente seus rostos), e isto destoa bastante da alta qualidade gráfica do restante do jogo. Eles possuem corpos um tanto quanto desproporcionais, também, além de rostos pouquíssimo expressivos.

Close to the Sun

Me deparei com um problema, aliás, um tanto quanto estranho: por duas vezes Rose saiu de dutos de ventilação e enquanto a câmera se ajustava para focalizar o ambiente, percebi, através de uma “passada rápida”, que a personagem não tinha cabeça.

Também não conseguimos observar reflexos de seu rosto, estranhamente e mesmo enquanto em frente a objetos reflexivos. A vegetação, por sua vez, não conta com um aspecto vívido, realista, e parece bastante artificial: parece que estamos observando folhas de plástico, digamos.

Mas Close to The Sun, ainda assim, é uma experiência e tanto. Um jogo que vale a pena ser jogado, apesar de ser um tanto quanto curto (ele dura algo em torno de 10 horas). A ambientação é fantástica, a trama é muito bem construída e o gigantesco Helios nos apresenta a cenários e situações desconcertantes, assustadores, emocionantes (sim, existem momentos emocionantes no jogo) e fantásticos.

Isto sem falar, obviamente, na fantástica trilha sonora do jogo, orquestral em vários momentos, a qual vai do tétrico ao triunfal, passando por momentos lindíssimos, verdadeiramente calmos e embevecidos, ao som de piano.

Close to the Sun

Se você está em busca de um jogo com perspectiva em primeira pessoa extremamente imersivo, e quer curtir uma ótima história, dê uma chance a este excelente jogo, o qual ficou em desenvolvimento durante mais ou menos 2 anos. Recomendadíssimo!

Ficha técnica

Título: Close to the Sun

Gênero: horror, ação, aventura, primeira pessoa

Desenvolvedora: Storm in a Teacup

Publisher: Wired Productions

Data de lançamento: 02 de Maio de 2019 (PC – exclusivo da Epic Games Store) / Até o final de 2019 para PS4 e Xbox One

Plataformas: PC

Versão analisada: PC

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