Escrever a respeito de Beyond: Two Souls, título lançado originalmente para o PlayStation 3 em 2013, é uma tarefa um tanto quanto difícil. O jogo do game designer e escritor David Cage, fundador, aliás, da desenvolvedora Quantic Dream, a qual também desenvolveu Indigo Prophecy e Heavy Rain (espero analisar este último em breve), é uma espécie de filme interativo, repleto das famigeradas QTEs (ou Quick Time Events).

Entretanto, o que poderia representar um demérito em outros jogos, aqui acaba passando batido na grande maioria das vezes, tamanho é o conjunto magnífico da obra, tão grandiosa é a narrativa, tão intensos são os personagens, tão espetacular é o jogo em si, com todo um quê cinematográfico presente em todos os instantes.

Ainda a respeito das QTEs, digamos que elas funcionam mais ou menos como uma espécie de elo de ligação entre o jogador e um filme. Não fossem elas, tudo o que teríamos em mãos seria um (belíssimo) espetáculo para os olhos e os ouvidos. E “nada” mais. Sendo assim, posso afirmar categoricamente que as QTEs não estragam a experiência, apesar da estranheza que possam causar em algumas pessoas, a princípio, principalmente devido ao fato da desenvolvedora empregá-las em enorme quantidade.

Beyond: Two Souls, após um hiato de cerca de 6 anos, finalmente desembarcou no PC, no último dia 22 de Julho de 2019, como um exclusivo da Epic Games Store (assim como Heavy Rain). O jogo chegou à nossa querida plataforma contendo uma série de mimos, incluindo o DLC “Experimentos Avançados”, suporte a resolução 4K, diversos aprimoramentos visuais (acredite-me, o jogo é lindo), compatibilidade com monitores widescreen 21:9 e taxa de quadros a 60FPS.

Beyond: Two Souls

Joguei no modo cinematográfico (há também um modo cronológico à disposição), e aí pude experimentar diversas “idas” e “vindas” no tempo, com a protagonista, Jodie Holmes, ora sendo um personagem jogável infantil, ora sendo uma adolescente, ora sendo uma mulher firme e forte enviada em missões pela agência de inteligência norte-americana, a CIA.

O fato é que Beyond: Two Souls coloca o jogador quase que no papel de mero espectador da trama, interagindo aqui e ali com elementos do cenário, tendo contato com inúmeras QTEs, andando, e controlando Aiden, o espírito “amigo” de Jodie.

A história do jogo é interessantíssima. Jodie nasceu com um dom, o qual ela considera, por diversas vezes, uma maldição. Uma entidade espiritual está a ela ligada de maneira permanente. Trata-se do já acima mencionado Aiden, o qual muitas vezes parece ser um tanto quanto possessivo em relação à protagonista, chegando ao ponto de atrapalhar a vida da mesma quando ela está prestes a ter um encontro amoroso.

Beyond: Two Souls

Pouco é dito sobre a origem de Aiden, sobre quem, ou o que, ele é, na verdade, e também a respeito do motivo de sua ligação firme e próxima com Jodie. Mas sabe-se que o governo dos Estados Unidos possui grande interesse em Jodie e em seus poderes psíquicos, todos eles oriundos, obviamente, de sua ligação com Aiden (Jodie é capaz, por exemplo, de incorporar espíritos).

O governo dos EUA, além disso, tem pleno conhecimento da existência do inframundo, um nome diferente/bonito, digamos, para o além, quem sabe. É lá que residem, no jogo, as almas dos mortos, e o governo constrói um complexo maquinário tendo em vista estudar tal “dimensão” paralela.

Beyond: Two Souls

Jodie, por falar nisso, uma órfã, é logo cedo colocada sob os cuidados do Dr. Nathan Dawkins, um cientista do DPA (Department of Paranormal Activities), o qual conduz diversos experimentos com a garota, por diversos anos, incluindo sua fase adulta.

Vale ressaltar, aliás, as atuações exuberantes de Ellen Page e Willem Defoe como Jodie e Nathan, respectivamente, além da trilha sonora magnífica e assinada por Hans Zimmer e Lorne Balfe. É, a Quantic Dream não estava mesmo para brincadeira ao criar tão magnífica obra.

Pois bem, uma vez escolhido o modo de jogo cinematográfico, somos levados a participar da vida de Jodie à partir de várias perspectivas, em diversos momentos: garota, adolescente, mulher. Podemos experimentar o medo que Jodie sente por contar com tais poderes, principalmente quando ela enxerga espíritos em busca de ajuda (mas não se engane, não se trata de um jogo de terror), podemos experimentar sua revolta quando coisas lhe são negadas durante bobas e pueris discussões, e também seu ódio e determinação quando em missão à mando da CIA.

Beyond: Two Souls

Beyond: Two Souls conta com doses muitíssimo bem calculadas de suspense, drama e ação, e mesmo que durante a ação (e até mesmo durante ações/movimentos básicos e rotineiros do dia a dia) sejamos obrigados a lidar com QTEs, quero deixar bem claro que estas se fazem necessárias dada a intenção mais do que clara da desenvolvedora em oferecer uma experiência de “cinema interativo”, acima de tudo.

Beyond: Two Souls

Os próprios controles do jogo causam algum grau de estranheza a princípio (joguei com um controle do Xbox 360), e ações como, por exemplo, abrir uma porta ou acionar o botão do elevador exigem que movimentemos o analógico direito na direção almejada. Trata-se de um filme interativo onde temos enorme poder de escolha, na verdade.

Sim, escolhas: Beyond: Two Souls permite que Jodie tome diversos rumos. Ele permite que o jogador decida como quer responder em diversos diálogos, agressivamente ou pacificamente, com raiva ou de maneira apaziguadora.

O título inclusive conta com diversos finais diferentes, cada um deles correspondendo à maneira como jogamos, à maneira como realizamos nossas escolhas, à maneira como optamos por este ou por aquele caminho.

Muitas vezes, as consequências das nossas decisões representam um verdadeiro soco no estômago, vale ressaltar, e ao final de cada capítulo, ou episódio, somos brindados com estatísticas comparando nossas escolhas com as de outros jogadores, com percentuais e tudo.

Beyond: Two Souls

É aí que percebemos que podíamos ter agido diferente, que podíamos ter optado por caminhos alternativos, que podíamos ter sido mais incisivos em determinado momento, etc.

É aí, nesta tal tela de estatísticas, que percebemos o quão ampla é a narrativa do jogo, o quão grande foi o trabalho da Quantic Dream e de David Cage em criar um mundo repleto de sutilezas, de situações que colocam a personagem principal no limite, de elementos extremamente perturbadores que fazem com que até o mais calejado dos jogadores se sinta tocado de maneira extremamente forte e muitas vezes comovente.

Jodie chega a participar de uma missão solo, pela CIA, no Oriente Médio, e aí as coisas acabam degringolando e fazendo com que ela se revolte contra a própria agência. Notável também é a atuação, se é que podemos entender assim, de Aiden, a entidade amiga que Jodie controla (na verdade, que o jogador controla).

Aiden é capaz de interagir com elementos do ambiente. De mandar coisas para o ar. De apertar botões. De abrir portas. De realizar diversas tarefas, incluindo espionagem de outros recintos/locais, tudo em benefício de sua “amiga”. Mas a entidade não é de todo amigável, e não faltam momentos em que Jodie se revolta com sua condição e com seu “amigo”, preso a ela por laços não explicados pelo jogo.

Beyond: Two Souls

Aiden em ação

Aiden também é capaz de possuir corpos de outras pessoas, e isto é um grande trunfo nas mãos da protagonista, principalmente quando em missão. É possível, por exemplo, possuir o corpo de um inimigo e então fazer com que ele atire contra seus companheiros e depois se suicide. É algo verdadeiramente fenomenal, e que eu nunca tinha visto em um jogo eletrônico (e pensar que Beyond: Two Souls já tem quase 6 anos de idade).

Mas um dos grandes trunfos do título da Quantic Dream é mostrar, de forma cinematográfica, o quão difícil é a vida de alguém especial (semelhanças com X-Men = OK). O quão difícil é tentar se manter incólume quando tudo e todos ao seu redor parece desabar.

Beyond: Two Souls

O quão difícil é viver e concretizar suas missões optando entre fazer o bem ou o mal: lembre-se – Aiden possui grande poder, e pode inclusive se rebelar, em momentos nos quais Jodie grita para que ele pare com suas ações (e ela nem sempre é atendida).

A entidade também parece gostar bastante da jovem Jodie, e se mostra bastante possessiva em relação a ela, como já dito acima. É uma pena que não sejam fornecidos maiores detalhes a respeito da ligação entre ambos, a respeito da origem de Aiden, e também a respeito de como se deu sua ligação com Jodie, desde que ela nasceu. Vale a pena destacar, aliás, que de vez em quando Jodie expressa medo e também raiva em relação a Aiden; isto sem falar em sua inconformação em relação à sua condição de “pessoa especial”.

Beyond: Two Souls

Vale ressaltar que a personagem principal é filha de pais também possuidores de poderes “especiais”, pais que desapareceram há tempos e que deixaram a pobre garota nas mãos de pais adotivos e posteriormente da DPA (veja acima).

Beyond: Two Souls

A relação de Jodie com o Dr. Nathan Dawkins, um dos cientistas da DPA, também é bastante importante dentro da narrativa de Beyond: Two Souls. O cientista gosta bastante da garota, e chega até mesmo a assumir o papel de um pai na vida da mesma, isto tudo em meio a idas e vindas cinematográficas para o passado, presente e futuro, da forma como a história é contada no jogo (no modo cinematográfico – o qual eu recomendo bastante).

Cinematograficamente, conforme eu disse acima, o jogador é exposto a vários momentos da vida da protagonista, e deve então montar um verdadeiro quebra-cabeças em sua mente, a fim de entender corretamente o enredo e a mensagem que a desenvolvedora deseja passar.

Beyond: Two Souls

Os gráficos do jogo são lindos. Lindíssimos, na verdade. Foi realmente feito um belo trabalho neste port para PC, bem como nos aprimoramentos gráficos, e não parece em momento algum que estamos jogando um jogo da geração passada. Muito pelo contrário.

É um fato que as QTEs atrapalham, de certa forma, a ação como um todo, uma vez que algumas vezes os controles são um tanto quanto imprecisos, e acabamos perdendo o “timing” e errando as sequências. Mas tudo isto, como eu já disse acima, acaba passando desapercebido quando olhamos para o conjunto da obra em si.

QTEs também estão presentes em momentos cruciais do game, incluindo eventos capazes de alterar o rumo da narrativa drasticamente. E, lembre-se: o jogo conta com vários finais diferentes, além de oferecer respostas diferentes e consequências distintas dependendo da maneira como agimos e dialogamos. Trata-se de um verdadeiro prato cheio para quem aprecia um segundo ou, quem sabe, um terceiro playthrough.

Mas voltando à história de Beyond: Two Souls, diversas coisas são subjetivas, e algumas são expostas de maneira bem clara. Quando Jodie vai viver nas ruas, por exemplo, é óbvio que sabemos o porquê de ela estar ali, mas acontecimentos subsequentes nos fazem pensar bastante em nossas decisões e em nosso passado (no passado da protagonista).

Beyond: Two Souls

Mais uma vez, é importante ressaltar: no jogo, você é capaz de agir de diferentes formas. Você é capaz de perpetrar o mal ou de fazer o bem, principalmente com a ajuda da entidade conhecida como Aiden.

Beyond: Two Souls

Aliás, ainda falando a respeito de Aiden e do suposto controle de Jodie sobre ele, a garota chega a afirmar, em determinado ponto da trama, que “ela não manda no Aiden, que ninguém manda; que ele é como um leão numa jaula“. Com isto em mente, é fácil perceber o quão difíceis podem ser algumas escolhas e ações no jogo, bem como quão ruins podem ser determinados finais ou desdobramentos.

Mas Beyond: Two Souls é uma belíssima, tocante e cinematográfica experiência. Uma espécie de filme interativo, no qual podemos fazer o bem ou o mal e sofrermos, então, as consequências de nossos atos. Tudo dentro de um universo muitíssimo bem construído, com personagens marcantes e fortes e as atuações brilhantes de Willem Defoe e Ellen Page.

Beyond: Two Souls

Se você ainda não jogou tal obra prima, não perca tempo: Beyond: Two Souls custa cerca de 48 Reais na Epic Games Store, e conta inclusive com áudio e legendas em português do  Brasil.

Ficha técnica

Título: Beyond: Two Souls

Gênero: ação, terror, psicológico

Desenvolvedora: Quantic Dream

Publisher: Sony Computer Entertainment

Data de lançamento: 08 Outubro 2013 (PS3), 22 de Julho de 2019 (PC)

Plataformas: PC, PlayStation 3, PlayStation 4

Versão analisada: PC

Obs: o jogo conta com algumas bordas negras horizontais, fruto da experiência cinematográfica que a Quantic Dream desejava oferecer aos jogadores e que somente desaparecem em monitores ultra-wide.

O amigo Carlos Aquino, do Retina Desgastada, publicou uma dica bastante interessante a respeito, incluindo a remoção das mesmas. Dê uma olhada.

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