Twin Mirror, da talentosíssima DONTNOD Entertainment, é um jogo que eu aguardava com uma certa ansiedade. O título, aliás, ao contrário da franquia mais famosa da empresa (Life is Strange – aliás, adorei Life is Strange 2), não foi lançado de forma episódica.

O que temos, com este novo lançamento da desenvolvedora francesa, é um único “pacote”, digamos. Uma história única, um único jogo, o qual pode durar algo entre 4 e 8 horas, dependendo do perfil do jogador, e que empolga bastante quando lemos suas páginas descritivas, pelo menos.

Twin Mirror

Confesso que sou grande fã da DONTNOD, também, e não poderia deixar de citar aqui seu ótimo RPG Vampyr, lançado em 2018. O fato é que Twin Mirror é um jogo interessante. Pelo menos, ele conta com premissas e com personagens interessantes, além de algumas mecânicas que funcionam muito bem.

Sobre Twin Mirror

A DONTNOD lançou outro título em 2020: trata-se de Tell Me Why, o qual, entretanto, passou um tanto quanto despercebido pelo público. Pelo que tudo indica, com Twin Mirror, o estúdio francês desejava atingir o mesmo nível de apelo e valor intrínseco que sua mais famosa franquia (Life is Strange).

Twin Mirror

Porém, o novo jogo da desenvolvedora é um tanto quanto fraco, pelo menos no que diz respeito à sua execução e à maneira como tudo transcorre tão logo o protagonista, Samuel Higgs, chega à pequenina cidade de Basswood, na Virgínia.

Twin Mirror

O jogo possui uma narrativa até que forte, além de empolgar em alguns momentos. Entretanto, há uma certa morosidade quando se trata de entregar ao jogador determinados momentos-chave, certas revelações importantes, vários detalhes intrigantes a respeito do próprio protagonista.

O próprio início do jogo é bastante “arrastado”, e demora algum tempo até que ação seja vista em tela. Sam chega a Basswood e visita logo de início o mirante da cidade e, bem, ele chega para um funeral. O funeral de seu melhor amigo, Nick Waldron.

A história

Descrito em diversas lojas como um “thriller psicológico”, Twin Mirror é, verdadeiramente, um jogo no qual lidamos com diversos elementos ligados à psique do personagem principal, bem como de vários outros.

Sam é alguém que deixou a cidadezinha de Basswood há 2 anos, deixando para trás inclusive vários amigos e uma namorada (ambos, na verdade, eram quase casados). Ele largou inclusive seu emprego como jornalista, em um pequeno jornal local chamado Basswood Jungle.

Twin Mirror

Acontece que uma certa investigação e posterior reportagem de Sam acabou resultando no fechamento de uma grande empresa mineradora local, a qual empregava grande parte da cidade, além de ser uma das maiores fontes de recursos para a mesma.

Sem querer, assim, Sam acabou ganhando a inimizade de grande parte da população de Basswood, a qual fechou os olhos para as irregularidades da tal mina e resolveu eleger Sam como uma espécie de bode expiatório.

Bem, Sam chega a Basswood para o funeral de seu melhor amigo, e em meio ao cerimonial, acaba discutindo com um certo personagem bastante importante na trama; algumas coisas bem estranhas também podem ser enxergadas pelo jogador mais atento em tal funeral, vale ressaltar.

O fato é que após algum tempo, Sam acorda sozinho em seu quarto no hotel. Isto após ficar sabendo que, talvez, a morte de Nick pode não ter sido algo acidental. Que o suposto acidente de carro pode ter sido algo bem diferente, na verdade.

Twin Mirror

Estranhos amigos e personagens

Está montado o cenário, digamos, para uma história repleta de reviravoltas e de elementos marcantes, além de alguns personagens interessantes e algumas pitadas de alguns elementos que podem ser de dúbia interpretação.

Acontece que Sam possui uma espécie de amigo imaginário. Alguém com quem ele trava verdadeiros (e muitas vezes até longos) diálogos. Este tal amigo imaginário, é importante ressaltar, também é capaz de fornecer dicas valiosas em diversos momentos.

Twin Mirror

Twin Mirror, além disso, não deixa lá muito claro (pelo menos não é algo que podemos enxergar na superfície) se tal amigo é fruto da fértil imaginação de Sam ou se trata-se de algo sobrenatural.

E em dado momento do jogo, Sam deve até mesmo decidir se continua com seu “amigo” ou se dele se “desfaz”: acredite, não é uma tarefa fácil, principalmente porque ela só vem após um longo e infelizmente moroso e chato quebra-cabeças.

Twin Mirror

Sam também tem contato, nos momentos finais do jogo, com alguns elementos que podem levar o jogador a várias interpretações, e não está descartada nem mesmo a hipótese de algo sobrenatural em outros elementos além do tal amigo imaginário.

O Palácio Mental e as escolhas em Twin Mirror

É no tal Palácio Mental que você pode, digamos, planejar várias das ações necessárias para prosseguir. É assim, por exemplo, que podemos planejar um incêndio para gerar uma certa confusão e, assim, ganharmos acesso ao trailer onde um traficante local se esconde.

No Palácio Mental de Sam, entra em cena uma paleta de cores bem diferente, pendendo bastante para o azul e para itens “espelhados”. É tudo muito bonito, e aqui podemos agir, em alguns momentos, como se estivéssemos em um jogo de estratégia em turnos, planejando ações que são então postas em prática quando pressionamos o botão “Executar”.

Twin Mirror

É aqui, também, que a mente privilegiada de Sam Higgs encontra o refúgio e a paz necessários para pensar melhor, com maior clareza. Nestes momentos, Sam meio que se desliga de tudo (como não poderia deixar de ser, aliás), e isto é plenamente notado até mesmo por sua ex-namorada, Anna.

Twin Mirror também permite que conversemos com vários NPCs, sendo possível optar por uma dentre diversas opções, durante tais diálogos. Podemos optar por diversos modos de ação, e nossas atitudes ao longo do jogo moldarão os rumos da narrativa, valendo também a pena lembrar que o título possui quatro finais diferentes.

Twin Mirror: moroso e problemático

Isto tudo conta bastante a favor do jogo, obviamente, mas tais pontos positivos acabam sendo sobrepujados por diversos outros elementos negativos. A narrativa conta com um ritmo moroso. Lento. Ao extremo.

O jogo demora a engrenar. A história demora muito para entregar ao jogador algo que o prenda, que o instigue, e quando o faz, bem, digamos que a emoção é entrecortada por vários momentos lentos demais.

Twin Mirror

Além disso, é inegável que muitos dos puzzles no Palácio Mental acabam por quebrar o ritmo da narrativa. Não que eles sejam difíceis: pelo contrário, muitos são até mesmo fáceis demais. O grande problema é que muitos deles acabam sendo inseridos justamente em momentos-chave, em momentos que ficariam muito melhores sem tais quebra-cabeças.

Os gráficos de Twin Mirror são muito bonitos. Desenvolvido na Unreal Engine 4, o novo game da DONTNOD entrega cenários muitas vezes deslumbrantes, além de modelos muito bonitos.

Além disso, sendo um jogo investigativo, temos que buscar por pistas as mais diversas, em locais os mais diversos. E o jogo não nos fornece ferramenta alguma para facilitar tal tarefa, sendo que o resultado é termos de ficar, muitas vezes, andando a esmo por vários minutos em busca dos necessários “prompts”. E esta situação se repete por diversas vezes ao longo do gameplay.

Twin Mirror

Tudo bem quando estamos em um espaço, digamos, confinado, tal como, por exemplo, o interior de um escritório ou de uma cabana de pesca. Mas existem cenários mais abertos, como um trecho de uma rodovia, por exemplo, e aí a coisa fica bastante complicada, para não dizer irritante.

O final do jogo entrega muitas surpresas, é verdade (dependendo do final que você “ganhar”, de acordo com suas escolhas), e talvez daí resulte um bom motivo para jogarmos o título novamente, isto se os problemas acima forem desconsiderados, pelo menos em partes.

Algumas considerações finais

Twin Mirror é um jogo interessante, mas que possui mais falhas do que qualidades. A emoção prometida pela DONTNOD é entregue quase sempre a conta-gotas, e algumas de suas mecânicas não se sustentam lá muito bem (acredite em mim: andar a esmo não é legal, e perambular por “estranhos corredores mentais” atravessando porta atrás de porta, literalmente, pode ser bem chato).

O título possui suas qualidades, claro. Sua trama certamente é interessante: acontece que ela “apenas” não foi entregue de forma adequada. Digamos que a execução, aqui, no grande todo, foi bastante falha.

Além disso, o alto preço do jogo (principalmente se considerarmos sua curta duração) pode ser um fator impeditivo e negativo: na Epic Games Store, por exemplo, ele custa R$ 172,00. Preços semelhantes podem ser encontrados nas lojas online da Sony e da Microsoft. Uma pena.

Ficha técnica

Título: Twin Mirror

Gênero: Aventura, Investigação

Desenvolvedora: DONTNOD Entertainment

Publisher: BANDAI NAMCO

Data de lançamento: 01 de Dezembro de 2020

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

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