Alguns jogos de terror nos pegam de surpresa. Tudo bem, eu me surpreendi bastante com o ótimo The Dark Pictures Anthology: Man of Medan (análise), da Supermassive Games (site oficial), mas The Dark Pictures Anthology: Little Hope é claramente superior, em diversos quesitos, além de mais assustador.

Digamos que o estúdio britânico conseguiu, desta vez, criar uma obra ainda mais fantástica, cheia de mistérios, assustadora e mais: Little Hope é capaz de deixar muitos jogadores confusos em meio à sua complexa trama.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Em meio à sua atmosfera sombria, em meio aos seus cenários sinistros, em uma cidade abandonada chamada, é claro, Little Hope, a qual foi palco de uma verdadeira Caça às Bruxas, no final do século XVII. Curiosamente, aliás, foi mais ou menos durante este período que ocorreram os famosos e infelizes julgamentos de bruxas em Salem.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Mais um capítulo de uma ótima antologia de terror

Depois de Man of Medan, eu não esperava algo inferior, em se tratando desta ótima série e depois de tudo aquilo que joguei em Agosto de 2019. É uma pena, apenas, que tenha demorado tanto tempo entre um “conto” e outro.

Mas posso adiantar que valeu a pena esperar, pois o trabalho é de primeira. The Dark Pictures Anthology: Little Hope também conta com a ótima e marcante presença do Curador, maravilhosamente interpretado por Pip Torrens.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

O Curador age sempre em meio a grande mistério, em sua grande biblioteca, rodeado de livros, meio que quebrando, muitas vezes, a quarta parede. Algumas vezes até, em Little Hope, ele chega a fornecer dicas ao jogador, as quais são sempre envoltas em mistério, porém muito significativas.

Aliás, vale destacar aqui a estupenda introdução, por assim dizer, do Curador em Little Hope, e também os momentos em que somos brindados pelo maravilhoso Réquiem em ré menor (K. 626), de Mozart, durante algumas de suas aparições.

Mais uma vez, sou obrigado a dizer que temos aqui um jogo de terror à moda antiga. Espere por aparições misteriosas, por vultos, por gritos horripilantes, e mais. Little Hope, além disso, meio que “coloca o diabo em evidência”.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Como já de praxe, as escolhas feitas pelo jogador importam, e muito. Elas podem representar, muitas vezes, a diferença entre a vida e a morte de personagens importantes. Mais: nossas decisões moldam o rumo da história, nos levam a finais específicos, e devem geralmente ser tomadas em momentos de grande tensão.

A história de The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Tudo acontece, como você já deve ter percebido, na “abandonada” cidade de Little Hope, nos Estados Unidos. Um grupo de pessoas acaba sofrendo um acidente (eles estavam à bordo de um ônibus de excursão, o qual acabou tombando na estrada), e esta é a deixa para que eles adentrem a misteriosa cidade envolta por um estranho nevoeiro.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

John, um professor universitário, acompanhado de seus alunos Andrew, Daniel, Taylor (uma garota) e Angela (também aluna, porém um pouco mais velha – com 48 anos), acabam então percebendo que a estranha névoa que permeia os arredores os impede de caminhar em outra direção que não seja de encontro a Little Hope.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

A “cidade fantasma” guarda bem mais do que aquilo que enxergamos, à primeira vista, tendo inclusive sofrido um êxodo em massa décadas atrás, bem antes dos acontecimentos vistos no jogo (mais precisamente em meados da década de 70).

Acontece que uma grande tecelagem da cidade, a Ravenden, acabou sendo fechada, sendo que grande parte da economia de Little Hope dela dependia. Com isto, a pequena cidade acabou sendo esvaziada, e o local que os protagonistas visitam, feliz ou infelizmente, em 2020, é então algo “terrível”.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

O Mal em diversas formas

Como eu já disse acima, espere por um jogo de terror à moda antiga, inclusive com aparições e presença de gatos negros como a noite que os rodeia (pobres animais), corvos, túmulos e cemitérios, além de uma ambientação fantástica. A sonoplastia também está impecável, devo dizer, e The Dark Pictures Anthology: Little Hope acaba entregando ao jogador algo verdadeiramente cinematográfico. E fascinante.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Com o destino de Daniel, Taylor, Andrew, John e Angela em nossas mãos, não é difícil pressupor que, em um local tão assustador e perigoso, as coisas muito facilmente podem sair fora do controle.

Além disso, há sempre a presença de uma demoníaca garotinha, Mary, além de constantes “idas e vindas” (jogue para saber mais a este respeito), durante as quais os personagens principais acabam tendo contato com pessoas e acontecimentos de séculos atrás.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

O Mal, em Little Hope, é uma constante, e se você não tomar cuidado, muito rapidamente seus personagens podem acabar a ele sucumbindo. Visões horripilantes de demônios e bruxas também acontecem, com certa frequência, ajudando muitas vezes a dar o tom da narrativa.

Aliás, demônios se contorcendo e perseguições alucinantes algumas vezes acontecem, momentos durante os quais podemos ser obrigados a pressionar determinados botões nos momentos certos (as tais famigeradas QTEs – mas isto não estraga a experiência, pode ficar tranquilo).

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Em The Dark Pictures Anthology: Little Hope, o jogador é constantemente posto à prova. Somos constantemente “bombardeados” com um amálgama de sensações funestas, originado do conjunto audiovisual criado com maestria pela Supermassive.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Vale também a pena destacar que nem sempre aquilo que vemos e ouvimos é verdadeiro. Bênção ou maldição, bem ou mal, certo ou errado: geralmente existem alguns “poréns”, na narrativa, e você deve ficar sempre bem esperto com os arredores e com as escolhas que está fazendo.

Um jogo cinematográfico

Levar todos, ou quase todos, os personagens jogáveis (alternamos entre eles com constância), vivos até o fim do jogo, pode muito bem ser o objetivo (ou um deles) do jogador: mas Little Hope sempre tem alguma maneira de inserir dúvidas em nossas cabeças.

Com seus gráficos lindíssimos, o novo game da Supermassive impressiona desde o início. Além disso, temos agora uma quantidade bem maior de câmeras disponíveis. Tudo acontece de forma bastante dinâmica, aliás.

Uma hora estamos controlando um personagem normalmente, com a câmera em terceira pessoa e bem próxima ao mesmo, e em outro momento estamos controlando alguém meio que ao longe, com o jogo dando maior ênfase ao (assustador) cenário. Tudo depende do momento, e temos câmeras fixas e livres.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Como eu disse em meu review de Man of Medan, em Agosto de 2019 (link acima), é geralmente difícil distinguir cutscenes de cenas jogáveis. O título é um tanto quanto pesado (no PC), isto é verdade, além de ocupar “meros” 57GB em disco.

A experiência, que pode chegar a até 10-11 horas, dependendo do estilo do jogador (eu levei 8 horas para finalizar o título), é verdadeira e absurdamente impecável, do início ao fim, e eu não escondo, aliás, que lembranças de Silent Hill vieram à minha mente.

Escolhas sempre difíceis em Little Hope

Se você aprecia jogos de terror e títulos onde suas escolhas verdadeiramente impactam o desenrolar da narrativa, então The Dark Pictures Anthology: Little Hope (bem como seu antecessor) é para você.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Os relacionamentos entre os vários personagens também vão sendo modificados ao longo do jogo. Isto é, o modo como cada um deles enxerga o outro depende de nossas ações, em momentos chave (sempre envolvendo ambas as partes, obviamente).

Optar entre grosseria ou gentileza, fuga ou enfrentamento, bondade e maldade, etc: tudo isto vai sendo registrado pelo game, e “armazenado” em uma seção especial dos menus, através da qual podemos sempre verificar como vamos indo no conceito de determinado NPC (naquele momento, quero dizer).

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Até mesmo supostas bruxas podem ter seus destinos afetados por nossas escolhas, mas é sempre importante lembrar que em Little Hope nem sempre tudo é o que parece. O enigmático Vince, encontrado em um velho bar abandonado, aliás, não deixa também de ser motivo para cautela por parte do jogador.

Vale também a pena mencionar o fato de que determinado personagem desaparece, logo no início do jogo, de forma extremamente estranha. Tal acontecimento não deixa de ser notado pelos protagonistas, muito menos pelo jogador. E ele adiciona ainda mais mistério à trama, posso dizer.

Dúvidas e mais dúvidas

Temos aqui um jogo cheio de elementos que são vistos em tela, pelo jogador, mas não pelos personagens principais. Isto adiciona mais terror ainda a diversos ambientes, momentos e cenas.

Em determinadas ocasiões, entretanto, todos, o jogador e os personagens, percebem a passagem rápida de vultos escuros – exceto o suposto vulto da “garotinha demoníaca” Mary, o qual sempre “risca o monitor” em tons avermelhados.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope

The Dark Pictures: Little Hope, no entanto, é certamente um jogo que deve ser jogado do início ao fim com grande cautela. Sua  trama é intrincada, os acontecimentos são interessantíssimos, bem como o background de cada personagem (sem falar na própria cidade em si), e a trilha sonora não deixa a peteca cair em nenhum momento.

O jogo planta na mente do jogador diversas dúvidas. Será tal personagem bom ou mau? Devemos salvá-lo ou deixar que ele sucumba? Para que lado seguir? Optar entre o confronto ou a fuga? Seguir adiante ou ficar onde estamos?

O jogo é bastante linear, devo dizer. O jogador geralmente é “pego pela mão”, tendo apenas de realizar as devidas escolhas. Até mesmo os cenários geralmente exigem pouca exploração, apesar de um ou outro guardar algumas surpresas.

De qualquer forma, é importante dizer, mais uma vez, que em Little Hope, e na própria cidade em si, nem tudo é aquilo que aparenta, à primeira vista. Portanto, muito cuidado com suas decisões.

Algumas considerações finais

The Dark Pictures Anthology: Little Hope é, certamente, um dos grandes jogos de terror de 2020. O título oferece grandes doses de sustos, além de uma atmosfera tétrica ao extremo.

Se você aprecia jogos de horror/terror, não deixe passar esta obra sensacional. Apesar de sua curta duração, o fator replay pode ser bastante aumentado, devido ao “fator escolhas” e também devido ao multiplayer, com cada jogador encarnando um personagem (com a devida transferência do controle para outras mãos).

Recomendadíssimo!

Ficha técnica

Título: The Dark Pictures Anthology: Little Hope

Gênero: horror, aventura

Desenvolvedora: Supermassive Games

Publisher: BANDAI NAMCO

Data de lançamento: 30 de Outubro de 2020

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

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