A Idade Média compreende um período que vai dos séculos V ao XV. Foi um dos períodos verdadeiramente mais negros da humanidade, o qual se iniciou com a derrocada do Império Romano no Ocidente, em 476 d.C., e culminou com a tomada de Constantinopla em 1453, pelo Império Otomano.

O período também foi “palco” para uma das epidemias mais terríveis que já assolaram a face da Terra, a Peste Negra, a qual estima-se ter matado cerca de um terço da população da Europa. Tão terrível era a doença, que o escritor italiano Boccaccio chegou a dizer que os doentes geralmente “almoçavam com seus amigos e jantavam com seus ancestrais no paraíso“.

A Plague Tale: Innocence

E é justamente durante este período que a dramática e macabra história de A Plague Tale: Innocence acontece. Tudo acontece, para ser mais preciso, no ano de 1349, em meio à Guerra dos Cem Anos (um dos maiores conflitos da Idade Média, aliás), guerra esta travada entre a Inglaterra e a França.

A narrativa de A Plague Tale: Innocence

A narrativa do título é forte, impactante, inesquecível, repleta de dramas e de decepções, além de perdas. Como personagem principal no jogo temos Amicia de Rune, jovem francesa com apenas 15 anos de idade que vivia uma vida tranquila junto com sua família, em seu castelo, a qual de uma hora para outra viu seu pequeno e encantado mundo ruir.

Certo dia, soldados da Inquisição liderados pelo mascarado e brutal Lorde Nicholas chegam até o castelo da família De Rune, assassinam o chefe da família e deixam bem claro que estão em busca do pequenino irmão de Amicia, Hugo.

A Plague Tale: Innocence

Hugo passou a maior parte de sua vida preso em seu quarto, devido a uma misteriosa doença, e pouco contato teve com sua irmã. Ele é portador de uma doença misteriosa. Existe algo em seu sangue, posteriormente conhecido como “Prima Macula”, e sua mãe, uma alquimista extremamente experiente, tenta à todo custo ajudá-lo, buscando chegar a um elixir que o cure.

A Plague Tale: Innocence

Amicia e Hugo são obrigados a empreender uma fuga, e tudo isto acontece bem rapidamente, sem que os irmãos possam sequer se conhecer melhor. Vale também lembrar que em meio a isto tudo, a França também sofre com a Peste Negra e com uma misteriosa e assustadora praga de ratos, a qual tem também origem em determinados elementos sobrenaturais posteriormente explicados.

São ratos que consomem quase tudo o que encontram em seu caminho, de seres humanos a animais, além de serem extremamente agressivos e temerem apenas a luz e o fogo. No jogo, a missão dos dois garotos, se podemos assim dizer, é fugir e ao mesmo tempo enfrentar soldados ingleses e a própria Inquisição, a qual tem interesses escusos em relação ao pequeno Hugo.

A Plague Tale: Innocence

Ao fugirem, Amicia e Hugo acabam encontrando outras crianças pelo caminho, como por exemplo os irmãos Amelie e Thomas, além do aprendiz de alquimia Lucas, o qual acaba se mostrando de enorme valia durante o jogo como um todo. Isto sem falar no filho de um ferreiro, chamado Rodric.

Gameplay, crafting e ação furtiva

A Plague Tale: Innocence é um jogo que mistura ação furtiva, ou stealth, com aventura e ação. Tudo isto com enormes pitadas de horror, horror este que muitas vezes acaba sendo representado pelos terríveis ratos que encontramos pela frente.

O jogo também conta com um sistema de crafting, ou criação de itens, básico, o qual permite que Amicia crie diversas poções extremamente úteis durante o gameplay, tudo à partir de elementos encontrados pelo caminho, como por exemplo pedras, salitre, enxofre, álcool, etc.

É extremamente importante, também, realizar os devidos upgrades nas bolsas da protagonista, para que ela possa carregar mais itens de criação, assim como é importante atualizar o máximo possível sua atiradeira, sua única arma, com a qual ela se defende e defende a seu irmão durante a história.

A Plague Tale: Innocence

Vale lembrar que ambos os personagens, tanto Amicia quanto Hugo, são frágeis ao extremo: A Plague Tale: Innocence prima bastante pela ação furtiva, pela abordagem em meio à sombras. Qualquer tentativa de confronto direto com os poderosos soldados armados resulta em morte certa e dolorosa.

Isto sem falar nos ratos, é claro: encare-os diretamente, tente passar sobre eles, e você (além do pequeno Hugo) morrerão engolfados por uma horda negra verdadeiramente assustadora.

Aliás, se você possui algum problema com este tipo de roedor, é bom passar longe de A Plague Tale: Innocence, pois o jogo conta com ratos aos milhares, muito bem representados, os quais chegam a formar, em vários momentos, verdadeiros “oceanos negros”, repletos de olhos brilhantes e famintos.

Dentre as poções que Amicia pode criar, vale destacar, por exemplo:

  • Somnum: permite que a personagem principal coloque inimigos humanos para dormir (desde que chegue sorrateiramente por trás deles);
  • Ignifer: capaz de atear fogo em braseiros ou então em montes de ratos que se erguem;
  • Devorantis: corrói o aço de elmos e capacetes dos soldados, permitindo então que a protagonista os mate com uma pedrada;
  • Luminosa: poção poderosa que cria uma explosão de luz extremamente forte, a qual elimina todos os ratos nos arredores (consome muitos itens do inventário, entretanto – portanto deve ser usada com cautela);
  • Odoris: atrai os ratos para determinado local – basta mirar e lançar;
  • Extinguis: apaga fogo rapidamente, em braseiros e lampiões;

A Plague Tale: Innocence

À partir da descrição dos itens acima, é fácil perceber que podemos criar várias estratégias durante o gameplay de A Plague Tale: Innocence. Podemos caminhar tranquilamente em meio às hordas terríveis de ratos (mas creia-me: a visão dos roedores, bem como ouvi-los, é verdadeiramente algo de arrepiar) desde que tenhamos em mãos uma tocha ou um graveto em chamas (este último, entretanto, é de curta duração).

Também podemos criar caminhos entre os ratos, afastando-os ao acendermos braseiros ou fardos de palha espalhados pelo caminho, assim como podemos nos locomover empurrando carrinhos de madeira que porventura possuam um braseiro aceso.

A Plague Tale: Innocence

É possível também apagar as tochas de inimigos que caminham em meio aos ratos, a uma distância segura, e observar então eles serem devorados aos gritos pelos roedores negros, de maneira horrenda.

A inteligência artificial de A Plague Tale: Innocence é bastante competente, e muitas fases exigem bastante paciência e cautela por parte do jogador, pois ao menor deslize os guardas encontram Amicia e a matam sem piedade.

Podemos nos esconder atrás de carroças e muros, e também podemos lançar pedras ou jarros em várias direções, tudo isto visando distrair os guardas para que possamos passar incólumes em direção ao nosso objetivo.

Vale lembrar que o jogo não oferece nenhum tipo de indicador a respeito de qual é o caminho correto a seguir. Também não existe um mini mapa, nem tampouco uma bússola: mas não se preocupe, pois trata-se de uma experiência bastante linear, focada, realmente, na narrativa forte ao extremo, além da ligação entre os dois irmãos.

A Plague Tale: Innocence

Vale também destacar a possibilidade de dar ordens a alguns personagens, em vários momentos. Em determinadas situações, podemos ordenar, através do d-pad, que Amelie, Thomas, Hugo, Lucas ou Rodric, por exemplo, empurrem alavancas ou coloquem mecanismos diversos em ação, os quais podem então mover braseiros de lugar e liberar passagem em meio aos ratos para outros personagens (ou para a própria Amicia).

Puzzles

O game da Asobo Studio também conta com alguns puzzles bem interessantes. Alguns deles, aliás, me lembraram da franquia Tomb Raider, em momentos em que temos que trabalhar em conjunto com outros personagens, dando ordens aos mesmos para que acionem alavancas que erguem determinadas plataformas que permitem então a nossa passagem.

A Plague Tale: Innocence

Existem também puzzles interligados aos próprios ratos, é verdade. Um destes exige que um dos personagens coloque um braseiro aceso suspenso por correntes em movimento, como um pêndulo, e nós devemos então andar conforme sua movimentação, para escapar dos roedores negros e à salvo enquanto estivermos sob a luz.

Existem puzzles, aliás, que nos forçam a controlar mais de um personagem, olhando para os mesmos e fornecendo as devidas ordens com o direcional do controle. Isto é bastante evidente quando somos obrigados a seguir um caminho que deve atravessar um moinho que se encontra em movimento. Aqui, o único caminho a nós oferecido para atravessar o vão são sua pás (as quais inicialmente encontram-se em movimento), e nosso objetivo é tornar tal caminho utilizável.

Nenhum dos quebra-cabeças, entretanto, é demasiadamente difícil, vale ressaltar: você conseguirá por eles passar sem maiores problemas desde que preste atenção aos elementos e ao ambiente ao seu redor.

A Plague Tale: Innocence

Fragilidade e relacionamentos

Amicia e Hugo (além dos amigos que os dois fazem durante sua jornada) são extremamente frágeis. A única arma da menina, como já dito acima, é uma atiradeira de couro, com a qual ela atira pedras que coleta e também poções de vários tipos (todas têm de ser fabricadas previamente, através de um menu específico para isso).

Tentar enfrentar qualquer inimigo diretamente, seja ela roedor ou humano, resultará em game over na certa. A ação furtiva é essencial para o progresso, e o jogador muito rapidamente perceberá que é preciso manter um equilíbrio adequado entre as sombras e a luz, para a devida progressão.

Os dois irmãos, além disso, começam sua jornada um tanto quanto “estranhos”, um em relação ao outro. Eles vão se aproximando, no entanto, pouco a pouco e conforme passam por perigos os mais diversos, sempre com a Inquisição em seu encalço.

A Plague Tale: Innocence

Hugo chega até mesmo a se enraivecer com a irmã, em variados momentos e por motivos os mais diversos, e um deles, em especial, quase resulta na morte da garota. No geral, o relacionamento dos dois chega ao final do jogo bastante fortalecido, mas eu, porém, senti falta de mais detalhes a respeito do mesmo, de mais momentos que nos fizessem sentir o quão grande era o amor entre os dois.

Digamos que Amicia e Hugo chegam ao fim de sua jornada bastante unidos: faltou apenas que o jogo nos fornecesse um pouco mais de profundidade no tocante aos sentimentos de ambos. Mais profundidade, também, a respeito de como Hugo chegou a respeitar plenamente e a amar incondicionalmente sua irmã, antes uma completa estranha.

No geral, a narrativa do título é forte e impactante: faltou apenas um pouco mais de explicações e detalhes a respeito da evolução da amizade e do amor entre os dois irmãos.

Mistérios sobrenaturais

A Inquisição, liderada pelo Grande Inquisidor Vitalis Benevent, tem como seu braço forte o cruel e mascarado Lorde Nicholas. Digamos que Nicholas representa a mão executora e Vitalis representa o cérebro.

Há um grande mistério no ar, além disso, o qual tem a ver com a Peste Negra, com a praga de ratos que assola o país, com Vitalis e com Hugo, além de referências a um antigo mal que atravessou gerações. A organização liderada por Vitalis chega a ser ameaçada pelo próprio Papa, devido a práticas não lá muito ortodoxas, apesar de tudo o que ela representa e de seu real papel.

A Plague Tale: Innocence

O sobrenatural está presente em diversos elementos de A Plague Tale: Innocence, e não faltam elementos que o ligue aos terríveis e famintos roedores negros que representam, talvez, os piores inimigos com os quais temos de lidar no game. Vitalis, por sua vez, também tem lá seus “podres”, e um deles em especial o liga de forma extremamente forte à Peste e também a Hugo.

Rats, Rats Everywhere

É importante ressaltar mais uma vez que a visão dos ratos é verdadeiramente horrenda. Nojenta, em diversos momentos, também. A Asobo Studio realizou um belíssimo trabalho, aqui, e o comportamento dos roedores negros assusta por diversos motivos.

Eles ficam extremamente ouriçados tão logo cheguemos perto deles com uma tocha nas mãos, e em vários momentos parece que eles irão desconsiderar o fogo e sobre nós avançar com força total.

Além disso, eles chegam a formar, em determinadas ocasiões, verdadeiras pilhas, com a altura de um humano adulto, e avançam sobre os personagens principais com enorme fúria: nestas ocasiões, devemos agir rápido e ter sempre um Ignifer (veja acima) em mãos.

A Plague Tale: Innocence

Seus olhos brilhantes na escuridão, o ruído que eles fazem, os “oceanos negros” que eles formam, a maneira destruidora como agem, muitas vezes abrindo buracos enormes no chão, além do modo como devoram seres humanos em questão de segundos, provocando em nós enorme asco: tudo isto faz com que A Plague Tale: Innocence, um jogo que, apesar de não ser primariamente classificado como “horror”, transmita grande pavor ao jogador. Os ratos no jogo, aliás, querem carne: viva ou morta.

A IA dos ratos, além disso, é sensacional. Às centenas, aos milhares, eles conseguem se comportar muitas vezes como um único corpo, de forma absurdamente assustadora, unidos em prol de um único objetivo: dar cabo de tudo e de todos.

A Asobo Studio, além disso, conseguiu animá-los de forma bastante convincente, e acredite: trata-se de um trabalho de primeiríssima qualidade, animar tão grande quantidade de “NPCs” de maneira tão detalhada e realista.

Foram justamente nos momentos em que observei milhares de ratos em tela, aliás, que pude observar algumas quedas de frames no jogo (apesar de ter utilizado um PC com configurações superiores à recomendada). Nada muito preocupante, devo ressaltar, entretanto.

Mas os ratos, no game, representam também, de certa forma, tudo aquilo de negro que assola a Europa e a França, em especial, naquele momento. Eles são como portadores do mal, sempre prontos a avançar sobre nós com sua fome. São também outra representação visual dos horrores trazidos pela Peste, portadores da morte, da crueldade, de trevas.

Finalizando

Temos aqui mais um grande lançamento em 2019. Um jogo que eu aguardava com enorme ansiedade, e que acabou se mostrando realmente digno de nota. Seus gráficos, além de tudo isto, são lindíssimos, sem falar no excelente trabalho de mocap.

A trilha sonora do game, composta por Olivier Deriviere (também responsável pela OST de Vampyr), também é fenomenal. Tétrica, assombrosa, em muitos momentos, ela faz uso de violoncelos e violinos de maneira estupenda. Consegue realmente transmitir ao jogador grande urgência e pressão, nos momentos em que temos de lidar com os ratos ou quando simplesmente observamos suas hordas imensas.

A Plague Tale: Innocence consegue emocionar e horrorizar, em medidas talvez iguais, tudo isto em meio a um dos períodos mais escuros da história da humanidade, escuridão esta também representada de maneiras diversas e inteligentíssimas no jogo.

A Plague Tale: Innocence

Sua trama é bem elaborada, e também temos personagens construídos com grande profundidade e esmero. Ação, aventura, furtividade e horror em doses muito bem calculadas fazem deste título uma obra imperdível para qualquer um que aprecie tais elementos.

Ficha técnica

Título: A Plague Tale: Innocence

Gênero: aventura, ação, furtivo, horror, medieval

Desenvolvedora: Asobo Studio

Publisher: Focus Home Interactive

Data de lançamento: 14 de Maio de 2019

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

Pin It on Pinterest