Confesso que tenho uma queda enorme por jogos pós-apocalípticos. Por títulos cuja história acontece após grandes catástrofes que resultaram na morte de milhares (ou milhões) de pessoas, deixando o mundo como o conhecemos totalmente transformado.

Adoro games que nos colocam em posições difíceis, extremas, desesperadoras, perturbadoras, ao nos apresentar a um planeta Terra, quem sabe, devastado, repleto de mazelas, de tristeza, de paisagens tristes e obscuras.

Apocalipse

Há beleza em tais títulos, é importante ressaltar logo de início, e eu confesso que me surpreendo bastante quando desenvolvedores como a 4A Games, por exemplo, conseguem criar algo do porte da franquia Metro (o review de Metro Exodus, aliás, você pode conferir aqui mesmo no XboxPlus).

Tenho comigo que o ser humano possui uma certa tendência a apreciar, de certa forma, a desgraça. O medo. O terror (salvo raras exceções). Haja visto os diversos programas na TV pertencentes ao tal “jornalismo mundo cão”. Haja visto o grande número de produções de terror que frequentemente chegam às telonas. Isto sem falar em outras mídias, obviamente, incluindo os games.

Metro Exodus

Metro Exodus

Temos também as produções de Hollywood que exploram catástrofes as mais diversas, desde invasões alienígenas até desastres que afetam o mundo inteiro, naturais ou não. Exemplos não faltam, e hoje mesmo, 16/04/2019, chega ao mercado um título que tem tudo a ver com o tema: World War Z, da Saber Interactive em parceria com a Focus Home Interactive.

Mas por que tal assunto consegue atrair um número tão grande de pessoas? Seja o apocalipse bíblico, seja o apocalipse com origem em algum tipo de invasão alienígena, seja o apocalipse com bases científicas, como por exemplo o impacto de algum asteroide, seja o apocalipse causado pelo próprio ser humano: todos estes são capazes de provocar não apenas enorme atenção por parte de jogadores e cinéfilos, mas também de provocar um certo medo, lá no fundinho da alma.

Talvez porque todos tenhamos, dentro de nós, a certeza de que a vida é finita, e que uma hora ou outra o dia fatídico chegará para todos. Brincar com o tema “morte” sempre fez parte de diversas mídias, e nos jogos eletrônicos, isto pode ser ainda mais intenso, uma vez que estamos lidando com uma mídia interativa, capaz de responder, muitas vezes, de forma tal a provocar sensações desconcertantes, medo, pavor, inquietação, etc. Brincar com tal tema pode representar uma forma de “superação da morte”, digamos.

O ser humano sempre teve a certeza, de diversas maneiras e de acordo com diversas crenças, que o fim chegará um dia. Até mesmo a ciência vez ou outra nos “brinda” com notícias a respeito de asteroides que passam “raspando” por nosso pequeno planetinha azul.

Muita gente, aliás, estava com medo da “profecia” Maia que dizia que o mundo acabaria em 21 de dezembro de 2012, e isto prova que o tema apocalipse está entre nós, de maneira bem forte, há centenas ou milhares de anos.

Metro Exodus

Metro Exodus

Talvez, também, tudo isto se deva a um desejo mórbido de saber o que vem depois. Talvez seja, quem sabe, o desejo de conhecer (ou imaginar) quais são nossos limites enquanto seres humanos, enquanto civilização, que nos faça consumir literatura, filmes e games relacionados ao tema. Talvez, em nossa pequenez diante do Cosmo, ansiamos por visões do fim para agirmos como se estivéssemos passando por ele, incólumes.

E também pode acontecer de, simplesmente, o assunto ser interessante, polêmico e misterioso demais, o que resulta então no grande número de produções, incluindo jogos eletrônicos, que observamos com frequência.

O fato é que tudo isto são apenas meras conjecturas, e eu confesso que, comigo, todas elas fazem soar uma espécie de alarme mental quando me deparo com um jogo pós-apocalíptico, por exemplo. Um alarme que me faz prestar mais atenção no mesmo, investigando seu enredo, observando seus gráficos e/ou screenshots e trailer divulgados antes do lançamento, etc.

O fim da civilização como a conhecemos pode um dia se transformar em algo real? Obviamente que sim. Entretanto, por mais que ansiemos por jogos, filmes e livros baseados em tal tema, é claro que não desejamos que algo assim aconteça. Jamais!

Para tudo, entretanto, existe um prazo de validade. A própria humanidade sabe que o planeta Terra não irá durar para sempre, até mesmo por que nossa estrela, o Sol, um dia a engolirá. Obviamente, isto acontecerá daqui a milhões de anos, e é óbvio que até lá não estaremos mais por aqui; pelo menos, não neste planeta (que muitos continuam insistindo que é plano).

Mas por que não sonharmos com novos mundos, com novas tecnologias, com novas “moradias”, portanto? Aí entra então em cena a questão da sobrevivência, elemento importantíssimo em jogos com temática pós-apocalíptica.

Sobreviver. Ultrapassar obstáculos. Vencer. Derrotar os inimigos. São todos elementos comuns aos jogos eletrônicos, os quais se fazem ainda mais presentes e fortes em jogos que acontecem “após o fim”. Há também aqui, no tocante à sobrevivência, um ponto que envolve o senso de recompensa.

Em The Division 2 (analisado aqui – screenshots do apocalipse aqui), por exemplo, os norte-americanos estão sobrevivendo após a grande catástrofe. A duras penas, mas estão, e pouco a pouco o jogador vai retomando Washington, derrotando grupos paramilitares cruéis e implacáveis, ultrapassando obstáculos, e sendo recompensado por isso.

Extrapolando um pouco tudo isto, consigo imaginar que em uma hipotética situação de catástrofe global, os também hipotéticos sobreviventes tentariam sobreviver à qualquer custo, e se sentiriam recompensados ao assim agir. Aliás, eles seriam recompensados automática e certeiramente meramente por ainda estarem vivos, por conseguirem alimento, por obterem abrigo, por vencerem as intempéries.

O senso de recompensa e o alívio (sim, alívio, por que não?) pode ser maior ainda quando um jogo pós-apocalíptico como Far Cry New Dawn, por exemplo (review aqui), nos apresenta a um mundo não tão modificado e repleto de belezas.

Far Cry New Dawn

Far Cry New Dawn

Um mundo que sofreu, obviamente, mas em um jogo cujo enredo se passa décadas após o grande desastre. Isto nos leva a pensar que, de certa maneira, mesmo nos piores cenários, sempre existem motivos para esperança. Catástrofes podem ser vencidas, assim como aconteceu com os habitantes de Hope County.

O mesmo podemos dizer de Metro Exodus, por exemplo (mas não vou deixar spoilers por aqui), apesar de que no jogo da 4A Games os problemas e os desastres foram bem maiores, sem falar que a atmosfera do jogo como um todo é bastante sombria.

35MM também é outro jogo que nos apresenta a um mundo assim (análise aqui). Este último, porém, é um tanto quanto desesperador e sombrio: ali não há esperança, não há nenhuma “luz no fim do túnel”, não há a certeza de que dias melhores virão. Muito pelo contrário. O título de Sergey Noskov é obscuro do início ao fim.

35MM

35MM

O fato é que lidar com tal tema desperta em todos nós uma mescla de sentimentos. Um amálgama de sensações muitas vezes conflitantes que, no final das contas, acaba fazendo com que pelo menos uma certa curiosidade em nós desperte.

No mundo dos jogos eletrônicos, o apocalipse pode não ser tão ruim assim. Muito pelo contrário.

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