A cópia de Hellblade: Senua’s Sacrifice utilizada neste review foi gentilmente cedida pelo GOG.COM, uma das maiores lojas de jogos digitais para PC do mundo, que vende também títulos livres de qualquer tipo de DRM.

Adquirindo seus jogos no GOG.COM, você também pode eventualmente contar com uma série de extras muito interessantes, como por exemplo trilhas sonoras, artbooks e wallpapers. A loja também oferece um cliente bastante prático e bacana (mas seu uso não é obrigatório), o GOG Galaxy, o qual conta com recursos extremamente valiosos, como por exemplo captura de screenshots, medição da taxa de quadros por segundo, saves na nuvem e atualizações automáticas dos jogos.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Confesso que Hellblade: Senua’s Sacrifice foi um dos melhores títulos que joguei nos últimos tempos. A britânica Ninja Theory (Enslaved: Odyssey to the West, DmC: Devil May Cry, dentre outros), conseguiu realmente criar aquilo que eles chamam de um “AAA independente”.

O jogo começa surpreendendo já quando nos deparamos com o trabalho espetacular da alemã Melina Juergens, a qual trabalhava como editora de vídeo no estúdio, a qual emprestou sua voz e realizou a captura de movimentos para a protagonista do jogo, Senua. Melina, aliás, ganhou o prêmio de “Melhor Perfomance” no “The Game Awards” em 2017, ano de lançamento do game, e por aí você pode ter uma ideia do excelente trabalho realizado pela agora atriz e também da qualidade do próprio jogo.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Eu sinceramente não sei como deixei passar uma obra tão espetacular. Na aventura, repleta de referências às mitologias celta e nórdica (principalmente esta última), encarnamos Senua, uma jovem celta que viu sua tribo ser destruída totalmente em um ataque viking. Filha de um druida e de uma mulher que profetizava à partir de vozes que supostamente vinham do submundo, Senua sofria desde cedo de uma psicose severa, motivo que fez com que ela fosse mantida isolada por seu pai, durante grande parte do tempo.

Isto até que ela conhece Dillion, um guerreiro de sua tribo, alguém que acreditava que ela era especial, e não amaldiçoada (o amor floresceu entre os dois, é importante ressaltar), como cria a maioria das pessoas com as quais ela convivia.

Era assim também que o pai de Senua a enxergava, devido a seus problemas mentais, às suas alucinações, ao fato de ela ouvir vozes constantemente. E temos até mesmo uma indicação de que a doença da protagonista poderia ser algo hereditário, porque o jogo, mais adiante, fornece grandes indícios disso ao lidar com sua própria mãe de uma maneira bastante especial, bem no meio da jornada.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Com a destruição de sua tribo e a morte dos seus, inclusive de Dillion, Senua sai em uma jornada solitária em direção a Hel, o mundo dos mortos na mitologia nórdica, tendo como objetivo confrontar a própria Hela e trazer de volta seu amor.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Hellblade: Senua’s Sacrifice é um jogo totalmente focado na história. Em uma bela, profunda e bastante perturbadora história. Não existem no game, vale a pena ressaltar, tutoriais, HUDs, nem nenhum outro tipo de elemento que atrapalhe a imersão do jogador. Não existem barras de saúde dos inimigos e nem tampouco da protagonista. Podemos obter informações a respeito dos controles nos menus do jogo, mas é só. Não há nada que nos guie pela mão, que nos diga o que fazer ou quando fazer, e muitas coisas devem ser deduzidas. E isto é ótimo.

Esta foi uma escolha bastante acertada por parte da Ninja Theory, em minha opinião, uma vez que assim o título acaba se tornando ainda mais imersivo. Assim, o jogador pode se focar totalmente na história, que é o elemento mais importante do game, ao invés de ser obrigado a lidar com tutoriais, prompts e outros elementos muitas vezes desnecessários e inúteis em uma narrativa criada com tanto esmero.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Senua, cujo nome tem origem em uma antiga deusa celta descoberta em 2002 (Senuna), sofre de severos problemas mentais. Ela é vítima de uma grave psicose, o que faz com que ela ouça vozes constantemente, sem falar em alucinações visuais.

Hellblade: Senua's Sacrifice

O jogador, em seu controle, se verá quase que todo o tempo bombardeado pelo som de vozes as mais diversas. Este é um elemento importantíssimo em Hellblade: Senua’s Sacrifice, e eu recomendo que você jogue com um headset, para uma melhor experiência.

Acontece que a Ninja Theory utilizou, durante as gravações, microfones binaurais, e isto faz com que o áudio das vozes pareça vir de diferentes posições, dependendo do local onde os atores se encontravam no momento. Isto cria uma experiência única, e no caso de Hellblade, torna tudo mais aterrorizante/perturbador ainda.

Hellblade: Senua's Sacrifice

As vozes que Senua escuta são importantíssimas no jogo, além de fornecerem fortíssimas provas de seus problemas mentais. Oriundas da mente perturbada da protagonista, elas a criticam, elas riem dela, elas a ridicularizam, sussurram de maneira insidiosa, e também falam que ela jamais conseguirá atingir seu objetivo.

Tais vozes, em diversos momentos, também conversam entre si, muitas vezes discordando a respeito das atitudes da própria Senua, o que empresta um ar um tanto quanto perturbador a diversos momentos do gameplay. Por outro lado, existem momentos em que as vozes agem com brandura, ajudando Senua e até mesmo alertando a respeito de caminhos alternativos ou de ações que devem ser tomadas.

Em determinados momentos, também, as vozes tresloucadas avisam Senua de que um inimigo está prestes a atacá-la por trás, no calor do combate (ouvimos um sonoro “behind you” em tais momentos – e isto ajuda bastante). Em outros momentos, as vozes avisam a respeito da necessidade do uso do “Focus”. Trata-se de algo que beira o surreal, e você se sentirá, muitas vezes, verdadeiramente perturbado com a louca cacofonia que se ergue no mundo do jogo.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Mas trata-se de algo essencial dentro do contexto da obra, até mesmo porque estamos lidando com algo que tem a ver com um personagem que sofre de uma doença mental severa, e isto se reflete no gameplay em quase todos os momentos.

Os puzzles talvez sejam o único defeito de Hellblade: Senua’s Sacrifice. Neles, temos uma série de portas que estão bloqueadas por algum tipo de magia. Portas que exibem um conjunto de runas. Ao nos focarmos em tais símbolos, somos então levados aos puzzles exigidos para a abertura das tais portas, os quais se resumem a encontrar tais runas no ambiente que nos cerca.

A maneira como tudo transcorre aqui é que complica um pouco as coisas, pois temos de enquadrar os símbolos translúcidos que observamos à nossa frente com elementos presentes no cenário. Com elementos que a eles se igualem. Pode ser a conjunção de uma porta e um poste, pode ser uma árvore sobreposta a outro elemento no cenário, pode ser qualquer tipo de elemento, e tudo depende também do ângulo à partir do qual estamos observando, sem falar na distância. Resumindo, temos de “encaixar” as runas que observamos à nossa frente com itens do cenário, de alguma maneira.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Em outras situações, temos de alinhar símbolos diversos e brilhantes, encontrando o ponto exato no ambiente à partir do qual eles possam ser “enquadrados” corretamente. Tais puzzles são um tanto quanto exagerados no que diz respeito à quantidade, e isto pode acabar cansando um pouco o jogador, sem contar que eles quebram o ritmo maravilhoso da narrativa.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Mas tudo bem, este é um pequeno problema a ser levado em consideração, e a qualidade da obra como um todo faz com que ele acabe passando batido. A narrativa é o ponto forte em Hellblade, e ela nos apresenta de maneira soberba alguém desesperado em busca de seu amado, no meio de uma jornada quase que sem esperança e ainda por cima tendo de lidar com uma escuridão que não para de crescer dentro de si.

Foi bastante alardeado, na época de lançamento do jogo, que ele contava com permadeath, ou morte permanente. O próprio jogo faz menção a isto em determinado momento, o que assusta bastante, até. Acontece que a cada derrota, uma espécie de podridão, de mancha negra, começa a surgir e a subir no braço direito de Senua, e de acordo com o próprio jogo, caso tal mancha chegue à cabeça da protagonista, é game over: e todo o progresso até então será perdido.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Entretanto, foi confirmado que tal informação na verdade não procede, e que Hellblade não conta com permadeath. Trata-se de uma maneira da desenvolvedora inculcar mais medo na cabeça do jogador. Trata-se de mais uma ferramenta para deixar o jogo ainda mais aterrorizante. É mais um modo que a Ninja Theory encontrou para representar a escuridão que caminha com força dentro da personagem principal do jogo.

É como se estivéssemos cercados de morte o tempo todo, e mesmo sabendo que não existe morte permanente, aquela mancha negra no braço de Senua, além de feia, asquerosa, possui lá uma certa capacidade de nos fazer temer com mais força a escuridão que rodeia a protagonista, por dentro e por fora.

Os ambientes do jogo são sombrios, porém belíssimos. Hellblade: Senua’s Sacrifice está imbuído de tristeza, de melancolia, de solidão, extremas. Senua é frágil, apesar de ser uma guerreira. Ela não conta com nenhum superpoder, e tudo o que ela tem é sua vontade e sua espada.

Ela grita de dor, ela chora, ela se desespera, ela fala, algumas vezes, consigo própria (de forma um tanto quanto assustadora), e ela também é digna de pena, em muitos momentos, quando a escuridão que grassa dentro dela alcança níveis alarmantes, perturbadores.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Tal escuridão, aliás, é o motivo para muito daquilo que observamos ao longo do jogo. Senua e as vozes que a acompanham representam um conjunto extremamente perturbador, e a Ninja Theory chegou a contar com a ajuda de psiquiatras e outros especialistas em doenças mentais, durante o desenvolvimento do jogo, além de pessoas que também sofrem com doenças mentais semelhantes à da personagem principal (há um documentário a respeito incluído no jogo).

É verdadeiramente incrível perceber como um jogo é capaz de nos surpreender de forma tão intensa. De nos imergir em um mundo (ou submundo) negro e cheio de dor, ao mesmo tempo em que aborda com extrema clareza temas que muitas vezes são enormes tabus.

Mas a escuridão está ali presente, em vários momentos, em várias formas, em diversos elementos. Até mesmo durante os combates, quando os inimigos se transformam em névoa e somente podem ser alcançados pela espada de Senua caso ela se concentre (utilizando o recurso do foco, que deixa tudo em câmera lenta e aplica um filtro bastante especial aos gráficos). As vozes, aliás, também avisam Senua de vez em quando a respeito dos momentos em que é necessário utilizar o foco.

Hellblade: Senua’s Sacrifice

A jornada da protagonista até Helheim, em busca de seu amado, é cheia de percalços. Percorremos paisagens desoladas, praias desertas onde restos de velhas embarcações vikings podem ser visualizadas, cavernas, florestas, campos cheios de flores, caminhos tortuosos entre montanhas altíssimas, vilarejos desertos, etc.

Senua está sozinha naquele enorme mundo, e apesar da aventura como um todo ser bastante linear, de vez em quando existe espaço para desvios que levam a espécies de monumentos onde, através do uso do recurso de foco, podemos conhecer mais a respeito do pano de fundo do jogo ou então a respeito da mitologia nórdica. É muito interessante. Vale a pena “perder tempo” com tais elementos, devo dizer com grande ênfase.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Hellblade também não deixa de ser um jogo triste. É bastante triste observar a protagonista em sua jornada e perceber que ela é um mero joguete nas mãos de forças poderosíssimas, forças estas muitas vezes oriundas de sua própria mente perturbada. Diversos acontecimentos, aliás, deixam o jogador com uma certa dúvida a respeito de sua veracidade ou não. É o que acontece, por exemplo, com Druth, personagem que fala com Senua (ela ouve apenas sua voz) em diversos momentos e que a ajuda, também.

Não sabemos se Druth, apesar dele falar bastante a respeito de si próprio e de seu passado, é um espírito ou outro produto da mente de Senua. Druth, aliás, possui uma aparência aterradora (nas poucas vezes em que ele pode ser visualizado), e “casa” muito bem com a ambientação de “quase horror” do jogo. Ele aparece, de vez em quando, de forma muito parecida com a de um fantasma.

Os combates em Hellblade são bem desenvolvidos. Diretos ao ponto. Basicamente, contamos com esquiva, ataques forte e fraco, chutes e bloqueio, além do foco (disponível conforme atacamos e tão logo um amuleto que Senua carrega fique totalmente brilhante). Como tudo no jogo, os combates possuem um ritmo cadenciado, lento, quando todos os movimentos devem ser bem calculados. Inimigos aparecem muitas vezes aos montes, e é importantíssimo o uso da esquiva e dos ataques leves, mais rápidos e ágeis.

Mas não espere por combates difíceis, vale dizer, até mesmo porque este não é o foco do jogo: como eu já disse, temos aqui um jogo cujo ponto principal é a narrativa, a jornada de alguém doente em busca de algo incerto.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Algo que Hellblade executa com maestria é a sensação de que tudo é incerto. Dada a doença mental de Senua, diferentes elementos podem ser enxergados sob diferentes óticas. O jogo como um todo deixa o jogador sempre desconfortável, sempre com medo de que algo quebre a frágil mente da protagonista para sempre. Há também espaço para diferentes interpretações, vale ressaltar, até mesmo porque não sabemos se a jornada até Hel é levada a cabo de forma literal ou imaginária.

Os gráficos do jogo, além disso, são belíssimos, e em vários momentos beiram o fotorrealismo. Somos brindados com enorme frequência com paisagens e ambientes de tirar o fôlego, mas sempre com uma lente soturna aplicada de forma bastante apropriada. Tudo isto ajuda a tornar a experiência inesquecível e perturbadora, daquelas que você sente tristeza quando chega ao final, pois tudo transcorreu maravilhosamente bem durante o gameplay.

Isto sem falar na maravilhosa trilha sonora, composta por Andy LaPlegua, da banda norueguesa Combichrist. Ela conta com muitos momentos que nos remetem realmente aos vikings, com cânticos característicos, percussão acentuada, e uma certa sonoridade tribal, se é que dá para me entender. Ficou fantástico.

Hellblade: Senua's Sacrifice

Eis aqui um grande jogo, daqueles que você deveria jogar (se ainda não o fez) o quanto antes, se gosta de ótimas histórias, de personagens bem desenvolvidos e de tramas que lidam com temas de nosso cotidiano de forma sensível e profunda. Confesso que eu gostaria de ver mais jogos como Hellblade, com enredos tão enigmáticos e profundos, com uma ambientação tão fantástica, com uma protagonista tão sofrida e até mesmo crível.

Afinal de contas, e até mesmo de acordo com o que podemos ver no documentário que acompanha o jogo, existem muitas Senuas espalhadas por aí, infelizmente. E o final do jogo? Ah, ele é extremamente tocante e impactante! E eu confesso também que adoraria ver um Hellblade 2! Vamos aguardar!

Ficha técnica

Título: Hellblade: Senua’s Sacrifice

Gênero: atmosférico, psicológico, horror, terceira pessoa

Desenvolvedora: Ninja Theory

Publisher: Ninja Theory

Data de lançamento: 08 de Agosto de 2017 (PC e PS4) / 11 de Abril de 2018 (Xbox One)

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

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