Já faz algum tempo que não jogo títulos de terror. Talvez em grande parte devido a alguns acontecimentos bastante “especiais” através dos quais passei em minha vida, recentemente. Mas o fato é que gosto de uma boa história de horror. Do sentimento de medo que sentimos ao dobrar uma esquina sem saber o que virá a seguir, da sensação que temos ao abrir uma porta e tentar antecipar que outras e assustadoras realidades conheceremos.

Layers of Fear, ou “Camadas do Medo”, estava parado na minha biblioteca do Steam já há algum tempo. Desenvolvido por um grupo composto também pelos desenvolvedores do recém analisado (aqui no XboxPlus) 2084, trata-se de um jogo de terror de primeiríssima qualidade, com um quê meio psicodélico e grandes exigências no que diz respeito à exploração.

Layers of Fear

No jogo, você encarna um pintor insano que sente uma necessidade premente de concluir sua “grande e final obra prima”. O jogo todo se passa em uma enorme mansão vitoriana do século XIX, na qual o protagonista se encontra preso em parte devido a não encontrar a saída, e também devido à sua obsessão em relação a seu derradeiro quadro. Não faltam, também, acontecimentos paranormais que o mantêm preso àquele ambiente bonito e, ainda assim, opressor.

Layers of Fear

Layers of Fear consegue criar uma atmosfera única ao representar a luta incansável de alguém perturbado mentalmente contra fantasmas interiores e exteriores. O game explora bastante a insanidade do protagonista, e o jogador é quem tem de sair em busca de artefatos e itens os mais diversos para ajudar na conclusão da obra.

Vale lembrar, aliás, que tais artefatos não são nem um pouco comuns, e muitas vezes você notará com horror extremo o que eles são e/ou representam (espere por sangue, por muito sangue, além de muito sofrimento alheio).

Layers of Fear

Uma das grandes sacadas de Layers of Fear é o design dos níveis. Não podemos confiar em nada na mansão, uma vez que ela tem sua “configuração” alterada à todos os momentos. Portas que acabamos de abrir desaparecem tão logo voltemos a olhar para elas. Caminhos e corredores mudam de configuração à todo instante.

Salas que parecem não conter saída, mas que as revelam conforme vamos observando os arredores à partir de diferentes ângulos. Quadros que se desfazem diante de nós revelando personagens e situações fantásticos e aterrorizantes.

Layers of Fear

Layers of Fear também é bastante linear. Entenda: somos guiados pelo jogo quase que durante a totalidade do gameplay, e os poucos desvios apenas nos levam para pontos sem saída e/ou onde apenas temos de coletar determinado elemento. Em diversos aspectos, aliás, ele lembra bastante um walking simulator.

Layers of Fear

E isto não é ruim, veja bem: trata-se de um título onde a proposta principal é contar uma história. Somos como espectadores de tal história, podendo com ela interagir com poderes limitados. Isto também elimina possíveis (mas nem sempre odiados, é claro) “problemas” com jogadores perdidos em meio a ambientes enormes, tendo de recorrer muitas vezes ao Youtube para encontrar o “caminho de volta para casa”.

O jogo nos conduz, porta a porta, corredor após corredor, bloqueando nosso caminho através de portas trancadas e nos conduzindo através de portas abertas deliberadamente. Ele conta sua história com maestria, vale ressaltar, e eu não vejo esta linearidade toda como um ponto negativo, dada a proposta do jogo e também dada a história extremamente cativante.

Layers of Fear

No jogo, abrir uma porta não significa que você encontrou a saída: pode acontecer de você ter meramente entrado em um novo e horripilante círculo vicioso. Em muitos momentos, andamos em círculos, e apenas a alteração no sentido de nosso caminhar pode revelar novas portas, novas passagens, novas alternativas (bem como novos e horripilantes elementos). Um conselho dado pelo jogo vez ou outra é “Don’t look back”, ou “Não olhe para trás”.

Layers of Fear

Acredite, isto é ao mesmo tempo necessário e ao mesmo tempo perturbador. Perturbador porque você nunca sabe o que de horripilante vai encontrar, desde criancinhas chorando atravessando os corredores de uma porta a outra, até uma mulher fantasmagórica caminhando ao longe, passando por brinquedos que se movem sozinhos, por cadeiras de rodas que insistem em se movimentar, movidas por mãos invisíveis. Aliás, não sei quanto a vocês, mas crianças e cadeiras de rodas em jogos de terror me assustam bastante.

Layers of Fear

E é necessário porque justamente estas mudanças de ângulo podem revelar novos detalhes, novas portas, novas passagens, novos elementos, novos quadros e pistas do que está por vir.

Mas a mansão em si é muitas vezes um labirinto e tanto. Portas através da quais acabamos de passar bloqueiam nosso retorno, pois ao abri-las nos deparamos com paredes de tijolos. Muitas vezes, nos encontramos em quartos onde todas as portas estão trancadas, e temos então de observar tudo o que nos cerca em seus mínimos detalhes, seja para revelar algum elemento importante, seja para simplesmente dar aquela guinada na câmera que o jogo precisa para nos fazer avançar ou então nos apresentar a mais labirintos e motivos para sustos.

A velha casa se reconfigura, como eu já disse acima, de maneira espetacular, dando sempre a sensação de que estamos à mercê de poderes invisíveis, maquiavélicos e insondáveis. Mas ela também nos brinda com lamentos, choros femininos angustiantes, situações em que tudo desaba ao nosso redor, quadros antes belos que se distorcem e se transformam em figuras horríveis, e muitas outras obras de arte que permanecem incólumes mas ainda assim são extremamente perturbadoras.

Layers of Fear

Aliás, é notório o fato de que muitos dos quadros da mansão (e ela é repleta deles) são extremamente perturbadores, de uma maneira até mesmo difícil de explicar. Você passará pelo mesmo local muitas vezes, vale lembrar, mas a cada nova passagem um novo detalhe será adicionado, um novo susto será apresentado, um novo lamento se tornará audível.

A maneira como a mansão se comporta pode ter também a ver com a insanidade e com o alcoolismo do personagem principal (acredite, encontramos garrafas vazias por todos os cantos), e aí, verdadeiramente, ficamos perdidos em relação ao fato de tais mudanças serem verdadeiras ou “meros” caprichos da imaginação do louco pintor.

Layers of Fear

Grande parte da história de Layers of Fear é contada através de bilhetes, memórias ao nos depararmos com objetos do passado, e com inscrições que encontramos nas paredes. Ali, naquela mansão, outrora viveu uma família. O pintor, sua esposa e uma criança, do sexo feminino.

Algo de muito horrível aconteceu, e cartas trocadas entre médicos e o pintor sugerem que um terrível acidente aconteceu com sua esposa. O protagonista, aliás, parece até mesmo sofrer de uma certa misantropia, pelo menos no que diz respeito a seu passado recente.

Layers of Fear

A criança, também, parece ter sido motivo de desavença, ou no mínimo de problemas relacionados ao fato do personagem principal não saber lidar com suas emoções e também devido a seu alcoolismo. Encontramos também diversas cartas de sua esposa, a ele dirigidas, nas quais ela reclama do fato de que apesar de viverem na mesma casa é como se um grande vazio se estendesse entre eles.

Parece que os dois ali viviam de forma bastante separada, com o pintor tratando com grande violência qualquer tentativa de interferência com o seu trabalho e/ou de entrada no seu espaço de trabalho, em seu workshop.

Os gráficos do jogo são OK, com destaques para momentos verdadeiramente psicodélicos nos quais você se pergunta: “- que droga esse cara tomou”? Tudo isto empresta enorme estranheza à trama como um todo, elevando ainda mais o nível de stress pelo qual passamos.

Layers of Fear conta com jump scares, isto é um fato. Mas também conta com uma atmosfera sutil de medo e angústia, a qual vai envolvendo o jogador aos poucos, ajudada imensamente pelo excelente trabalho de áudio e também pela ótima trilha sonora.

Sons diversos provém de vários locais enquanto atravessamos os lúgubres corredores. Ratos enormes passam em nossa frente com seus chiados perturbadores. Estrondos são ouvidos à distância. A chuva torrencial cai lá fora, com direito a trovões e relâmpagos vislumbrados através de janelas sempre embaçadas, e quando não, podemos ouvir o vento uivando de maneira enlouquecida, ajudando a criar ainda mais um clima de tensão extrema.

Layers of Fear

Ao longo do gameplay, vamos finalizando, pouco a pouco, a “obra prima” do outrora renomado pintor. Trata-se de algo verdadeiramente estranho, talvez belo apenas frente a seus perturbados olhos. O jogo conta com 3 finais distintos, e tudo isto depende da maneira como lidamos com determinadas situações ao longo do gameplay.

Vale também lembrar das aparições de uma figura feminina aterradora. Nada é afirmado, mas parece se tratar do fantasma da esposa do pintor. Chegue muito perto dela e além do susto, você “morrerá”. Isto porque não existe morte, propriamente dita, em Layers of Fear: tudo o que acontece é você desmaiar e acordar no mesmo local onde aconteceu o fatídico encontro, sem nenhum tipo de prejuízo, a não ser em relação aos finais. A história do jogo é sutil, interessante, carismática ao extremo. E com a notícia de que Layers of Fear 2 vem vindo por aí, eu mal posso esperar para nele colocar as mãos.

Layers of Fear

Também existem puzzles no jogo, mas todos eles (à exceção do último), são bem leves e tranquilos. Por exemplo, você encontra anotações com números e terá então de utilizar tais números para abrir cadeados que liberam acesso a outros ambientes. Tudo é bastante simples. Simples demais, até, eu diria.

Apenas a duração do jogo é curta: 4 horas, apenas. Mas eu prefiro uma experiência curta e intensa a uma longa e maçante. Se você procura por um jogo de terror que ofereça bons sustos e que contenha uma história digna de nota, dê uma olhada no espetacular Layers of Fear.

Ficha técnica

Título: Layers of Fear

Gênero: terror, atmosférico

Desenvolvedora: Bloober Team SA

Publisher: Aspyr

Data de lançamento: 15 de fevereiro de 2016

Plataformas: PC, Xbox One, PlayStation 4, Nintendo Switch

Versão analisada: PC

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